terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O defeito

Agora à minha companhia o silencio
Cruel dos covardes e adoentados
Cujas desabilidades são agora feitas
Da eterna generosidade desmedida.

Um bom apanhado de fracassos,
O esconder-se a dor para não ferir.
Um não sorrir com a graça do palhaço
Por ver ali a personagem desprovida

Angústias não adornadas em alegrias
E sentir seu mundo também silente
Grato pela plateia ainda presente
Nos momentos sublimes da poesia

Que acontece, não por acaso,
Em dias difíceis de travessia...
Quando do céu já não vem chuva
E no chão já não há água

A realidade mais egoisticamente linda
Desperta no sertanejo o sentimento
Que não é o de estar só num picadeiro
Enquanto lhe zombam da sua quietude

Que é finita a estadia nesse terreno
Regado por régias águas
Dos reinos dos céus das águias
Das andorinhas, e outros pássaros.

Passa tudo por este espaço,
Mas não fica um nada de vazio
Que lhe faça a gentileza de gerir
A gentileza, em outro, um desvario.

Salve os mansos e encurralados
Pelas promessas falsas do desengano
Pois que destes somente é a cura
Pelo infalível remédio do divino

Pedro Torres

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Bons dias...

"Os dias prósperos não vêm por acaso. Nascem de muita fadiga e muitos intervalos de desalento."

Camilo Castelo Branco

sábado, 24 de dezembro de 2011

Fumaça

Untam-se os instrumentos,
A música logo renasce...
Tanto de mim se foi... Na fumaça...
Que breve o momento passa!

Misturam-se os sentimentos,
Beijo a tua face, e amigos...
Ficamos até a sentir... Depois do tempo próprio
Em descumprir o velado, que arde...

Descortinamos o sentido da tarde!
E, de abertas as janelas algo nos invade.
Sentimos o cheiro da acolhedora chuva
E nos acena o pão, e a geléia de uva.

Tanta a saudade dessa dor doída
Da delícia da tua mordida
De na minha carne a tê-las,
Que a descoberto, vejo estrelas!

Inda cego pela pobreza, do querer riqueza.
Segue caminhando as suas veredas
E, esperando nada, tampouco, a sorte!
Estaria, pois, a planejar-lhe a morte.

Mas não morre o que já morreu
Nem se queda sem azar a lida
Expulsando do peito toda a delícia
De sentir-se nada mais, que nada.

Enfim, lembrar-se do que não finda
Tomas doutros cálices, outra medida
Apanhar as flores do campo perfumado
E sentir a brisa suave do campo iluminado.

Crer no além do que ora se apresenta
Tentar, tentar, como quem tenta
Encontrar a dita felicidade
Quem inda não acolheu em si a vida.

Dá-me uma bússula, sê meu norte
Guia-me pela escudidão de meu eu
Sê a mescla do mel e do sal
A estrela guia do meu cizento céu!

Clareia a minha visão obscurecida
Dá-me de beber da tua melhor bebida
Permitas-me observar o horizonte
E matar a sede em tua fonte.

Pedro Torres

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Natal do nosso Salvador

Ó Deus-menino, nascido
Onde não nascem os reis,
Que os homens hoje encontrem,
A riqueza que escondeis
Entre os maltrapilhos panos,
Que são, na verdade, enganos
Camuflando a Realeza
Da mais alta Majestade.
Consoladora ironia:
Sair de uma estribaria
Pra salvar a humanidade.

E vós, Maria, menina
Do sim e da humildade,
Vosso Salvador nasceu
Na vossa maternidade!
Vosso ventre virginal,
Sem pecado original,
Revestido de pureza,
Gerou quem não foi Criado.
Depois de muitos cansaços,
Vistes ressonar nos braços
Vosso Deus Verbo encarnado!

E vós, José, homem justo,
Vós que esperáveis o Bem,
Descendente de Davi,
Da cidade de Belém;
Ó filho contemplativo,
Fostes o pai putativo
Do Autor da natureza,
O Filho do Pai eterno.
Aquele menino Santo
Recebeu o acalanto
Do vosso abraço paterno.

E vós, ó homens de bem,
Amados do vosso Pai,
Não passais indiferentes,
O presépio contemplai!
Permiti, pois, que este infante
Sem riqueza exuberante,
Disfarçado de pobreza,
O redentor das nações,
Aproxime-se com jeito,
Aloje-se em vosso peito,
Nasça em vossos corações!

Pe. Brás Costa, Natal do nosso Salvador, 2010

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O construtor de repentes, Louro Branco


Ontem o Poeta Felisardo Moura nos presenteou com esse versinho:

O verso que faço é caro
Pelos metais que arranjo,
Se o verso atrasar eu tanjo,
Se o verso correr eu paro;
Se ficar grande eu aparo
Pra peça não ser comprida,
Se ficar curta e perdida
Boto uma emenda na frente
Sou construtor de repente
Nas oficinas da vida!

Poeta Louro Branco

sábado, 17 de dezembro de 2011

Ne me quitte pas*

Eu que sou 100% isento de chifre, hoje escrevi um verso de corno! O publico desejando que não sirva nunca aos meus amigos e amigas, mas, se por desventura acontecer, lhes console a certeza de que o clube é grande! Aí o batizei com um título em francês, por que já que é pra ser corno, vamos pelo menos ser finos!

Ne me quitte pas*

Mesmo que teus olhos vivos
Não procurem mais os meus
Mesmo com ou sem motivos
Não pronuncies Adeus!!!

Deixes meus lábios cativos
Sem poder tocar os teus
Deixes que teus "nãos" nocivos
Matem os meus "sins" plebeus.

Não precisas nem sorrir
Deites só para dormir
Se eu te velo, não te queixes.

Mesmo que minh'alma chore
A desdenhe, a ignore
Mas te peço: Não me deixes.

*Ne me quitte pas é o título de uma famosa canção de Jacques Brel escrita em 1958 e gravada a primeira vez em setembro de 1959. Ao contrário do que muitos pensam o compositor é belga e não francês, já que como sabeis, os dois paises falam a "lingua da diplomacia".

Brás Costa

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Ledo engano...

Mesmo tendo me dito que esqueci
E fingindo total indiferença
Na verdade meu eu ainda pensa
Que teu tu, mesmo ausente, está aqui...
Estes anos, sem nós, eu só vivi
Remoendo a tristeza do teu não.
Quase morto cheguei a conclusão
Que dizendo esqueci, o meu eu mente...
Eu não posso esquecer completamente
O amor que inda doi no coração.

Poeta Brás Costa, no mote da Poeta Mariana Teles.

Pagando motes...

Poeta Lourival Batista 'pagando' um mote do Poeta Raimundo Asfora:

Senti das paixões abalos
E desesperos medonhos
Sonhos, sonhos e mais sonhos
Sem jamis realizá-los
Na fronte senti os halos
Das auras da juventude
Mas nunca tive a virtude
De dormir entre dois seios
Não tive amores, sonhei-os
Mas possuí-los, não pude.

Ainda 'pagando' um mote antigo, versejou:

Do gosto para o desgosto
O quadro é bem diferente
Ser moço é ser sol nascente
Ser velho é ser um sol posto
Pelas rugas do meu rosto
O que fui hoje não sou
Ontem estive, hoje não estou.
Que o sol ao nascer fulgura
Mas ao se pôr deixa escura
A parte que iluminou.

E respondendo um cantador que despontava à sua fama, disse:

Sua vida inda está boa
A minha é que está ruim
A sua está no princípio
A minha está bem no fim
Estou perto de estar longe
De quem está perto de mim

Poeta Lourival Batista

Eu quero teus seios puros...

No mote do Poeta Raimundo Asfora:
"Eu quero teus seios puros / Na concha das minhas mãos."

Versejou o Poeta Job Patriota:

Esses teus seios pulados
Nossos olhos insultando
São dois carvões faiscando
No fogão dos meus pecados
São dois punhais aguçados
Ameaçando os cristãos
Mas pros meus lábios pagãos
São dois sapotis maduros
"Eu quero teus seios puros
Na concha das minhas mãos."

As quadro velas

Quatro velas ardiam sobre a mesa,
E falavam da vida e tudo o mais.
A primeira, tristonha: “Eu sou a PAZ,
Mas o mundo não quer me ver acesa…”

A segunda, em soluços desiguais:
“Sou a FÉ! Mas é triste a minha empresa:
Nem de Deus se respeita a Realeza…
Sou supérflua, meu fogo se desfaz…”

A terceira sussurra, já sem cor:
“Estou triste também, eu sou o AMOR…
Mas perdi o fulgor como vocês…”

Foi a vez da ESPERANÇA – a quarta vela:
“Não desiste ninguém! A Vida é bela!
E acendeu novamente as outras três!

Obra prima do Poeta Dedé Monteiro