segunda-feira, 30 de abril de 2012

Irmã seca

Irmã seca injustiçada
Venho te pedir perdão,
Pelos golpes e insultos
E as culpas que te dão.
Dizem que és inclemente
Causticante, e renitente,
Isenta de piedade.
Doadora de sobejos,
Madrasta dos sertanejos,
E mãe da calamidade.

És da fome promotora
Da sede fonte perene,
A maior acionista
Da indústria da Sudene.
Do desespero és a farra,
Inspiração da cigarra,
Patrocínio da discórdia.
Tu és causa de gemido.
Pra sertanejo ferido:
Tiro de misericórdia.

Mas na verdade irmã seca,
Tu não tens culpa de nada.
És bode expiatório,
De uma política safada.
Que diz que só faz o bem,
Roubando de quem não tem,
Depois usando teu nome.
Cria leis só para alguns,
Leis que enriquecem uns,
E matam muitos de fome.

Não irmã, tu não tens culpa
És um fator natural,
No meu nordeste tem seca
Mas é seca de moral.
Temos uma seca crítica
Mas é seca de política
Que almeje o bem comum.
E não nos dê duras penas
Mate de fome centenas
Para saciar só um.

Desculpe irmã seca insultos,
Acusas e maldições.
Protestos que tu recebes
Dos cariris aos sertões.
O desespero e a mágoa
Não são por falta de água
E pão que a todos comove.
É por que gente que sonha
E politico de vergonha
Há muito tempo não chove.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Poeta Brás Costa, do Pajeú à Suíça!

I
Ouço canções do passado
Faço versos no presente
Escrevo pra minha gente
Deixo meu peito ocupado
Quando me acordo inspirado
Deixo o rumor da cidade
E vou beber liberdade
Para nutrir esperança.
Tomo goles de lembrança
Pra não morrer de saudade.

“Ave Maria, ave Maria, ave Maria. Xudu não tinha tamanho não... Duas rimas acanhadas para homenagear um dos maiores vates que o Nordeste conheceu, ou pior, ainda não conheceu.“ (sic)

II
Quando Deus ficou sabendo
Que a morte desceu do céu
Pra vim buscar Manoel
Foi logo se aborrecendo.
Mas São Pedro foi dizendo:
Vai ser ruim pro Pajeú,
Eles perdem, porém, tu
Ganhas um vate inspirado.
Deus deixou, contrariado,
A morte matar Xudu!

Pela internet, o poeta pediu-me um mote e debulhou de improviso:

III
Choveu a noite todinha
Que passei a noite em claro
Até bem de manhãzinha
A cisterna tá cheinha
O curral tá tão molhado
Que tem bezerro atolado
E boi tremendo de frio
O sertão está no cio
Querendo ser fecundado

Sobra lama na baixada
No pé cerca basculho
Só se escuta o barulho
Das batidas de enxada
Também se escuda a zoada
Que vem forte do roçado
Do ritmo acelerado
Da correnteza do rio
O sertão está no cio
Querendo ser fecundado

Poucos minutos depois, saiu de outra fornada:

Depois que a nuvem excitou-se
Caiu por cima da serra,
Molhou o ventre da terra,
E a seca é que retirou-se.
A esperança arranchou-se
Deixou tudo esverdeado
E o corpo do chão curado
Das feridas do estio.
O sertão está no cio
Querendo ser fecundado

Brás Costa, no mote de Pedro Torres

IV
Passo dias e dias sem lembrar-me
Mas às vezes me lembro de repente
Da paixão (quase amor) que entre a gente
Acabou quando ela quis deixar-me
Perambulo por becos sem achar-me
Sem amor, sem afeto e esperança
A saudade se avizinha mansa
Se aproxima de mim depois castiga:
‘Vez enquando’ a saudade me obriga
Passar perto da rua da lembrança.

Brás Costa, no mote de Mariana Teles

‘O Poeta Ricardo Moura deu o mote. E pra quem tá longe de casa como você da certo demais...’ (sic)

V
Tem lembrança que afeta e que maltrata
Ela traz sete letras que incomodam,
São roletas travadas que não rodam
Ou um nó que se deu e não desata,
Muitas vezes se torna até ingrata
Se tem cura pra ela, inda não sei
Na passagem dos anos arranjei
Este mal que não da tranquilidade,
Encontrei uns pedaços de saudade
Nos escombros da casa que morei

Ao chegar fiquei perto porteira
Parecia estar vendo no curral,
O meu pai ajeitando um animal
Pra botar o remédio na bicheira,
Até vi que voava a varejeira.
Foram cenas que visualizei,
No presente o passado eu avistei
E pertinho vi minha mocidade
Encontrei uns pedaços de saudade
Nos escombros da casa que morei

Na casinha pequena que eu morava
Só ficou para mim muita saudade
Lá passei toda minha mocidade
Lembro até o lugar que mim deitava
Do campinho pequeno que jogava
Também sei que jamais esquecerei
De uma bola de meia que ganhei
Que me deixou coberto de vaidade
Encontrei uns pedaços de saudade
Nos escombros da casa que morei

E do cheiro gostoso do café
Que a gente sentia lá de fora,
Parecia dizer que era a hora
Que chegava papai de São José
E voltando um pouquinho lembro até
Da primeira pelada que joguei
Lembro o time de jovens que formei
Quase todos contendo a mesma idade
Encontrei uns pedaços de saudade
Nos escombros da casa que morei.

Brás Costa, no mote de Ricardo Moura

No intervalo de um mote e outro, saem uns versinhos sortidos:

VI
Poeta em todas as línguas
É um reconhecimento.
De habilidade na escrita
Classe no comportamento.
Mas, menos em São José
Porque lá, poeta é
Pronome de tratamento.

VII
O que gosto em São José,
É a paisagem discreta.
Em julho a rua da baixa
De festa e gente repleta.
Lá não se diz: Excelência,
Ilustríssimo, Eminência.
Quer tratar com deferência?
Diga: "bonito poeta!!!”

VIII
Eis uma cena completa:
Beleza, ternura e brilho
A mãe ganhando do filho
Beijo de filho e poeta
Até o vento se aquieta
Diminuindo o solfejo
Pra ver no mais santo ensejo
O filho fazer o bem:
Beijar a face de quem
Lhe deu o primeiro beijo.

(Vendo uma bela foto do poeta Felisardo Nunes beijando a face de sua mãe)’ (sic)

IX
Se eu dissesse mentiria
Que em um dia de neve
Não é bom sentir a leve
Carícia da neve fria.
Porém, tudo trocaria
Para assistir no poente
O sol vermelho e valente
Como um soldado na guerra
Se esconder detrás da serra
Lá no Pajeú da gente.

São lindas, eu admito
São belas até demais
As Polis medievais,
As metrópoles de granito.
Mas, São José do Egito
Pra mim é mais atraente
Quero viver novamente
Onde pequeno vivi
E a contragosto saí.
Lá do Pajeú da gente.

Gosto da vida serena
De dez meias fazer bola
Não troco um som de viola
Na orquestra de Viena
Gosto de missa e novena
E cantador de repente
E quando fico doente
Me curo muito barato
Só com remédio do mato
Lá no Pajeú da gente.

Não troco um carro-de-bois
E dois garrotes mistiços
Por todos alpes suíços
Isso eu posso ver depois.
Prefiro feijão, arroz
E não "comer" diferente
Desses que a gente nem sente
O gosto do que foi feito
Que eu só sei comer direito
Lá no Pajeú da gente.

Sou filho de camponês
Não gosto de andar de luva
Não troco o cheiro de chuva
Por um perfume francês
Gosto é de manga "de vez"
Com sal e com aguardente
Dormir ouvindo somente
Pingos batendo na telha
Sonhar com mel de abelha
Lá no Pajeú da gente.

Vendo esses versinhos de Brás, o Poeta Paulo Moura destocou do peito essas linhas:

Andar nessa terra quente!
...E na sombra do umbuzeiro
Escapar desse braseiro
E desse sol inclemente
Depois ouvir um repente
De um verso feito na hora
Ao fundo, a trilha sonora
Do gorjear de um Cancão
São lembranças do sertão
Que sinto no peito agora!

E, em uma homenagem à Dona Zefinha, mãe do poeta, brotaram essas linhas:

X
Com poucas frases poéticas
Elogiá-la me empenho.
Mas, não bastam minhas rimas
Meus versos e meu engenho.
Para falar de Zefinha,
A mulher, mãe e rainha
Dona dos dias que tenho.


Deixe, né eu!?

XI
Quem me critica dizendo:
Que destona e não combina
Eu um homem de batina
Viver meu verso escrevendo,
Menos ainda, bebendo!!!
Como se fosse um plebeu.
Eu digo ao "amigo" meu,
Que pensa em me corrigir
E a quem quiser ouvir
Um claro: "Deixe, né eu!?”

‘Três estrofes num mote meu. Modestamente gostei do mote, espero que sirva de inspiração para meus irmãos poetas.’ (sic)

XII
Eu respeito, mas, quase não entendo
Quem não sabe gostar de cantoria.

Ver um verso nascendo de improviso
Um poeta cantando ao som do pinho
Escutar um poema de Marinho,
E não ver quanto o verso sai preciso.
Não encher sua boca de sorriso
Com dois vates fazendo uma porfia
Ver Cancão recitando pra Maria,
E dizer que é besteira o que está vendo:
Eu respeito, mas, quase não entendo
Quem não sabe gostar de cantoria.

Como posso nascer no Pajeú
Sem vibrar escutando o estribilho
De um "Louro" fazendo um trocadilho
Ritmando nas notas de Xudu.
Como posso escutar Zezé Lulu,
Sem notar toda sua maestria.
Se o fizesse seria covardia
E somente em pensar, já me arrependo.
Eu respeito, mas, quase não entendo
Quem não sabe gostar de cantoria.

Como posso ficar indiferente
Sem sentir as diversas emoções
Vendo a classe das novas gerações
Que garantem futuro pro repente.
Vendo a planta que germina semente
Cai na terra e outra planta cria.
No sertão vejo isso todo dia:
Uma morre e duas vão nascendo.
Eu respeito, mas, quase não entendo
Quem não sabe gostar de cantoria.

‘Essa é pra rir um pouco, porque amar tá difícil, beber tá caro e as férias ainda demoram.’ (sic)

XII
Um verso pra minha vó
Pessoa que me quis bem.
Que me deu muitos conselhos,
Eu esqueci mais de cem.
Mas, um da mente não some:
"Passarim que pedras come,
Sabe o furico que tem."


E, numa prosa em versos, o Poeta Zelito Nunes se antecipa, ‘pagando uns versos’: (rs)

XIV
Amigo poeta Brás
Não fique contrariado
Por eu ainda não ter
Cumprido com o acertado
De lhe mandar sem demora
As fotos do batizado

É que eu sou um retardado
No assunto computador
Não sei copiar, colar
Fazer danlowd o estopor
Vivo mendigando ajuda
Dependendo de favor

Se algum cristão com louvor
Fizesse a vontade minha
Pode crer que com certeza
Eu lhe mandava agorinha
Os retratos meus e seus
Batizando a minha gordinha

Zelito Nunes

A resposta veio nesses conformes:

Espero a vida todinha
Mesmo que não veja o fim
A foto é só pra matar
Essa saudade ruim
Mas, para a minha alegria,
Esqueça a fotografia
Mas não se esqueça de mim.

 ‘Contando as horas pra nos reencontrarmos em julho meu poeta!!!!’ (sic)
"São Zé"

XV
Tu és o pai putativo*
Do filho do Pai eterno
Mas, teu nome doce e terno
É Zé por outro motivo.
Tem um valor afetivo
Que pra nós soa bonito
São José! Está escrito
Mas, lá na minha cidade
És "São Zé" na intimidade
De quem nasceu no Egito.

'*Que se supõe ser o que não é. Reputato.‎' (sic)

Brás Costa


E assim chegamos a esta segunda-feira, 19 de março de 12.


Pedro Torres

sábado, 17 de março de 2012

Almas nuas


É um teu olhar
De certa tristeza.
E um dia adiante
De rara beleza:

A cena noturna
No céu cristalino
Tarda matutino
Pelas noruegas...

E tudo dorme...

Acorda outro dia
E tão radiante
O teu ser criança
Embala poesia

Tempo de não tempo,
De amor tão distante.
Da saudade vazia...
Nosso contratempo.

Tão doces palavras
Dormindo ao relento
E acorda o poeta
A um sentimento.

Pedro Torres

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Dois poetas e um céu estrelado...

Na mesma linha da resposta ao poeta Augusto dos Anjos em Versos Íntimos, o Padre Poeta, Brás Costa, ouve o verso do poeta Olavo Bilac, Ouvir Estrelas:

Ouvir Estrelas

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir o sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizes, quando não estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".

E diz:

Contemplação

Caro Bilac o teu verso
Ajudou-me a refletir
E ensinou-me a ouvir
As filhas do universo.

Quando as vejo reluzir
Fico por horas disperso
Vendo nelas refletir
O que calado converso.

As estrelas reticentes
São as minhas confidentes
Iguais as tuas estrelas.

As minhas são mais singelas
Tu conversavas com elas
Já eu me contento em vê-las.

Ô mundo grande, esse dos poetas!

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Lua nova:

Andas tão formosa e bela,
Permita-nos do teu clarão...

Quando o céu é mais bonito
A reluzir no infinito,
Encantamentos do sertão,
Canto um canto, de verão...

Oh! Enamorada dos poetas,
Musa da inspiração,
Cede um brilho de poesia
Dai-nos da sorte desmedida
Dessa descoberta não tardia.

Permitas a essência
Do que há de mais sagrado
Aconteça nesse instante.

Que nada nesse mundo vale nada,
Nem vale esse choro derramado.

Dá-me um bocado do amor teu,
Não me importa se de falsidade,
Já conheço esse jogo de maldade
Vingue, e chega de tanta saudade!

Pedro Torres

Uma outra alegria...

Um beijo,

Eu quero um trago desse teu 'cigarro'
Do veneno, da morte, o diacho!
Quero uma brisa na tua cidade
E, Raio de Sol, sabes que te quero!...
Quero ouvir aquela velha melodia,
Que falava da vida, do amor, da travessia?!

Quero ver-te debulhando as margaridas
'Num inverno que chegue de repente'
Quero as flores do jardim, mais coloridas,

Quero as águas transparentes de um riacho
Banhando a história bonita do amor da gente.
Só se, no fim, quem vence é a saudade
E somos nós os escritores do destino.

Serei broto num orvalho matutino,
Chorando a manhã que foi embora.

É a poesia renascida, poeta,
As rimas nossas mais inquietas,
As mensagens mais desconcertantes!

A alvorada dos pássaros mais cantantes
Os campos mais verdes e risonhos
A primavera melhor dos nossos sonhos.

Já não choro, minhas lágrimas já secaram!
Mas, sei das tuas procuras...

Das buscas por outras esperanças.
Das viagens por outras sertanias.
Da essência sagrada da mudança
Dos momentos de tristeza, e de alegrias.

Da gentileza do perfume, que te banha,
E da distancia, que insiste.
Mas, não me perguntes se estou triste,
Sabes bem que sem nós o eu não existe.

Foi essa chuva que banhou o amor da gente?
'Não respondas, deixe-os imaginar'
Dos besouros que não tardam, nas lanternas.
E, ao nascer um novo luar... Outro beijo...
Mas, não se acostume!

Pedro Torres

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Volverán las oscuras golondrinas

Volverán las oscuras golondrinas
en tu balcón sus nidos a colgar,
y otra vez con el ala a sus cristales,
jugando llamarán;

pero aquellas que el vuelo refrenaban
tu hermosura y mi dicha al contemplar;
aquellas que aprendieron nuestros nombres,
esas... ¡no volverán!

Volverán las tupidas madreselvas
de tu jardín las tapias a escalar,
y otra vez a la tarde, aun mas hermosas,
sus flores abrirán;

pero aquellas cuajadas de rocío,
cuyas gotas mirábamos temblar
y caer, como lágrimas del día...
esas... ¡no volverán!

Volverán del amor en tus oídos
las palabras ardientes a sonar;
 tu corazón, de su profundo sueño
tal vez despertará;

pero mudo y absorto y de rodillas
como se adora a Dios ante su altar,
como yo te he querido... desengáñate,
¡así no te querrán!

Gustavo Adolfo Becquer

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O defeito

Agora à minha companhia o silencio
Cruel dos covardes e adoentados
Cujas desabilidades são agora feitas
Da eterna generosidade desmedida.

Um bom apanhado de fracassos,
O esconder-se a dor para não ferir.
Um não sorrir com a graça do palhaço
Por ver ali a personagem desprovida

Angústias não adornadas em alegrias
E sentir seu mundo também silente
Grato pela plateia ainda presente
Nos momentos sublimes da poesia

Que acontece, não por acaso,
Em dias difíceis de travessia...
Quando do céu já não vem chuva
E no chão já não há água

A realidade mais egoisticamente linda
Desperta no sertanejo o sentimento
Que não é o de estar só num picadeiro
Enquanto lhe zombam da sua quietude

Que é finita a estadia nesse terreno
Regado por régias águas
Dos reinos dos céus das águias
Das andorinhas, e outros pássaros.

Passa tudo por este espaço,
Mas não fica um nada de vazio
Que lhe faça a gentileza de gerir
A gentileza, em outro, um desvario.

Salve os mansos e encurralados
Pelas promessas falsas do desengano
Pois que destes somente é a cura
Pelo infalível remédio do divino

Pedro Torres

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Bons dias...

"Os dias prósperos não vêm por acaso. Nascem de muita fadiga e muitos intervalos de desalento."

Camilo Castelo Branco

sábado, 24 de dezembro de 2011

Fumaça

Untam-se os instrumentos,
A música logo renasce...
Tanto de mim se foi... Na fumaça...
Que breve o momento passa!

Misturam-se os sentimentos,
Beijo a tua face, e amigos...
Ficamos até a sentir... Depois do tempo próprio
Em descumprir o velado, que arde...

Descortinamos o sentido da tarde!
E, de abertas as janelas algo nos invade.
Sentimos o cheiro da acolhedora chuva
E nos acena o pão, e a geléia de uva.

Tanta a saudade dessa dor doída
Da delícia da tua mordida
De na minha carne a tê-las,
Que a descoberto, vejo estrelas!

Inda cego pela pobreza, do querer riqueza.
Segue caminhando as suas veredas
E, esperando nada, tampouco, a sorte!
Estaria, pois, a planejar-lhe a morte.

Mas não morre o que já morreu
Nem se queda sem azar a lida
Expulsando do peito toda a delícia
De sentir-se nada mais, que nada.

Enfim, lembrar-se do que não finda
Tomas doutros cálices, outra medida
Apanhar as flores do campo perfumado
E sentir a brisa suave do campo iluminado.

Crer no além do que ora se apresenta
Tentar, tentar, como quem tenta
Encontrar a dita felicidade
Quem inda não acolheu em si a vida.

Dá-me uma bússula, sê meu norte
Guia-me pela escudidão de meu eu
Sê a mescla do mel e do sal
A estrela guia do meu cizento céu!

Clareia a minha visão obscurecida
Dá-me de beber da tua melhor bebida
Permitas-me observar o horizonte
E matar a sede em tua fonte.

Pedro Torres