quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Reserva

Vê-se imerso em segredo
O poeta quando ama
Pra preservar sua dama
Guarda o seu nome o aedo
Amando sem sentir medo
Bem se entrega de verdade
E pede: por caridade,
Ame muito e queira bem.
Sem poder dizer de quem
É triste sentir saudade

Quer saber o quanto dói
Uma saudade infinita
Ame a pessoa mais bonita
Espere o que se constrói
Que o ácido tempo corrói
A essência de alguém
Por amar e querer bem
Sem gozar da liberdade
"É triste sentir saudade
Sem poder dizer de quem"

O amor é algo tão bonito

Não há razão pra se esconder
Antes de encontrar você
Meu coração tava aflito
Mas, um proceder restrito
De alguém que ama alguém
Pra zelar o querer bem
Esconde a linda verdade
É triste sentir saudade
Sem poder dizer de quem

Pedro Torres

Mote do poeta Jânio Leite, invertido na primeira estrofe.

Prece à colibri

Não vai agora, fica um pouco mais...
Escuta a paz que se aproxima de ti.
Que removerá todos aqueles ais
E te soará como o canto da colibri.

Que te deixará desconcerta, sem graça
Como se sem graça, um dia, pudesses ficar
Não liga, tudo isso num instante passa
Abre a janela, pois, e deixa o amor entrar.

Quem sabe o conforto que hás de sentir
Seja tão imenso quanto o teu coração espera
Quem sabe, enfim, terá chegado a primavera
E florirá, tudo o que sonhavas florir.

Quem sabe o amor te tome, de tal maneira
Que não fique noite sem estrela
Nem céu azul na manhã mais verdadeira
Que tu não querias sentir, tocar, e tê-la.

Fica bem.

Pedro Torres

Solo

Dia desses, proseando com uma pessoa no Facebook até altas horas da madrugada, senti que algo me foi tomado de súbito quando a hora se passou sem que eu notasse, até fugindo da normalidade e, 'repentinamente', o colóquio chegou ao fim.

O galo cantava quando terminou o papo, a passarada dava os primeiros sinais de vida e o céu começava a clarear.

Busquei ainda encontrar algo que me livrasse da solidão que sentia naquele instante ou um alento pro meu coração poeta e encontrei um mote do poeta Henrique Brandão, e pude redigir essas linhas, quando disse:

O frio tomou a praça
Que anjos faziam festa
O galo cantou seresta
Pra mostrar o tempo passa
E com cristalina taça
Celebramos a união
De um, mais outro, coração.
Onde o amor quedou silente
Quer conhecer a paixão
Conheça a história da gente.

E foi assim que meu dia terminou.

Pedro Torres

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Iluminar

Quero um mundo inteirinho teu...
Que me rouba a paz, a calma,
A paciência, os olhares, e todo meu ar.
No silêncio que antecede o beijo...
Sentir o calor e o teu desejo,
Ouvir o som, aquilo bom, e te abraçar.

Decorar o teu olhar e a tua fala,
Os teus gestos, e de nada mais lembrar...
Perder o tino e, em desatino, sentir-se à toa
Dar as mãos, viajar bem longe, ficar numa boa.
Rir dos ciúmes, dos cheiros, dos perfumes e de tanto pudor;
Amar sem queixumes, contar vaga-lumes e morrer de amor.

Pedro Torres

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Lagamar

Na casa que eu morei
Quando eu era criança
Tem as coisas que deixei
Pra viver só da lembrança
Mas eu tenho a esperança
De quem sabe num janeiro
Eu voltar pro meu terreiro
E na saudade dar fim
É que pai fez um jardim
Onde era o juazeiro.

Pedro Torres

Mote sacado pelo poeta Maurício Menezes, numa frase dita espontaneamente por Danilo Torres, meu irmão.

O país e a roseira

O País é uma roseira,
A pobreza é a raiz;
No trabalho é a primeira
Na sorte a mais infeliz...
A haste, a escadaria
*Por onde a aristocracia
Sobe os degraus a vontade;
Deputados, senadores,
Desta roseira são flores
Sem responsabilidade

A raiz desta roseira
Está no estrume enterrada;
Ali passa a vida inteira
Do mundo não goza nada;
As rosas estão em cima,
Arejadas pelo clima,
Cada qual quer ser mais bela
Mais garbosa, mais feliz,
Esquecidas da raiz
Que vivem à custa dela

Espinhos por guarnição
Ainda a roseira tem;
Eis os soldados que são
Guardas dos grandes também;
Negam ao pobre o que é propício,
Sujeito ao sacrifício,
Cumpridor do seu dever
Mas, por não ter ideal,
Termina no lamaçal
Uma vida sem viver...

Em seu silêncio profundo,
O pobre é quem está de pé;
Passando a vida no mundo
Sem saber o mundo onde é.
Lá solitário, sozinho,
Foi a base do caminho
Por onde o grande passou,
Esquecido, em bom lugar,
Em cima, sem perguntar
Quem para ali o levou.

Os votos da populaça,
O candidato a rogar...
A rosa esmola, por graça,
Água para não murchar;
Porém depois de votados
São para cima levados,
Ali ficam como quem
Subiu passo a passo, a esmo,
Conduzidos por si mesmo
Não devem nada a ninguém.

Proprietários da sede
Os grandes quando não são,
Estão como a rosa que pede
Água pra vegetação;
Depois de bem irrigada,
De flores bem enfeitada,
Deu-lhe o inverno a ação;
Adorna num apogeu,
Esquece de quem lhe deu,
Água quando era verão.

Poeta Antônio Marinho, o Águia do Sertão, ou Rei dos Cantadores (Filho, Aleixo – 1972)

*Esta frase não está publicada no livro, mas, é como a conheço.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Prece antes de dormir...

não durmas triste,
não vale a pena o pranto
por acreditar-se só,
ou que os teus sonhos
tenham-se quedados esquecidos..

mas, antes, silentes, adormecidos
à espera de o teu coração contente.
sorri, e oferta teu lado mais gentil
ao passar do tempo
e à saudade que te fere.

acorda teus olhinhos para o amor divino
faz graça dos percalços, pois não duram
empresta ao dia a companhia do teu sorriso
e busca a felicidade nas coisas simples.

valoriza o abraço fraterno,
sê sincera e amorosa,
crê na vida antes do anoitecer
que o sol não tarda em volver.

se porventura uma lágrima te fugir
deixa esta prisioneira viver a liberdade de um instante.
acompanha o seu movimento por tua face
e alegra-se com o calor que te oferta.

pende teu cabelo ao vento,
permite à tua mão,
de palmas às escâncaras,
que toquem as manhãs todas desta primavera.

sente o perfume das flores,
o frio da madruga,
segue a um lugar tranquilo...
ao abrigo da luz divina.

o cheiro da maresia da praia;
brinca com as espumas das ondas.
toca a bruma; pisa a areia branca;
fecha os olhos e dorme.

ao acordar leve, lembras: a tua existência
é a razão de muitos, e de Deus.

fica bem

Pedro Torres

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Joia rara

Parece dois diamantes
Brilhando igualmente a lua
Quando os encontro na rua
Noto eles radiantes
Vou lembrando dos instantes
Que você me olhou sorrindo
Eram flores se abrindo
Em seus olhos acastanhados
Vi dois brilhantes cravados
Num rosto moreno e lindo.

Uma joia rara, garimpada numa mina de poesia pela poetisa Lucélia Santos

Imigrantes

‎"Com desgosto cortando o coração
Todo dia assisto achando ruim
Vendo os ônibus da Itapemirim
Carregar os heróis do meu Sertão
Que por falta de chuva, emprego e pão
Deixam filhos, esposa, irmãos e pais
E vão embora, viver nas capitais
Onde às vezes pioram as suas crises
Poucos deles conseguem ser felizes
Muitos deles nem podem voltar mais..."

Poeta João Paraibano

Insone

Encantam-me as palavras
Adornam-me os verbos
Os meus poemas...

Roga-se às letras
O condão das lavras
Redescobertas.

Completa-me o vazio
Encho-me da ausência
Em meu canto.

Inquieta-me a completude
Fragmentos inteiros
Reatam.

Pende-se ao silêncio
À noite inquieta
E resta acordada.

Pedro Torres