Deus não viu isto aqui... Não viu. Não viu que o Diabo
Atou um estopim flamívolo no rabo
E com a mais cruel satânica intenção
Espojou-se no vale, relinchou na serra,
Tirou fogo do sol, fez um vulcão na terra
E correu a ganir, incendiando o sertão!
Eis o quadro infernal: Quentura, céu desnudo,
Horizonte sem fim, desolação em tudo;
As pedras a piscar no solo calcinado,
Nenhuma folha verde a sequidão reveste
E desde o litoral aos carrascais do agreste
A terra é como um fogo imenso, escancarado.
Exauriram-se as fontes, tudo é seco: os rios
Com leito estorricado, ao longo dos baixios,
Enroscam-se no chão num morno caracol;
As árvores em pé, desnudas como espetos,
Apontam para o céu num gesto de esqueletos
Condenados por Deus, queimadas pelo sol.
O ar é um bafo quente, a terra é como brasa.
Nem a sombra volátil trêmula de uma asa
Rasteja a imensidão do campo descoberto:
As aves já morreram... Outras emigraram...
Somente os urubus famélicos ficaram
Ao pé de alguma ossada, ao longo do deserto.
Famintos animais, à margem das estradas,
Cambaleiam mordendo as palmas eriçadas
Dos cactos agressivos, secos, repelentes;
E os gemidos de dor que arrancam das entranhas,
Mal ressoam nos vales, morrem nas montanhas
Como o último sinal dos últimos viventes.
A alma triste das coisas cai no chão de bruços,
Abafando em si mesma os últimos soluços
Que a nação ouve sempre e faz que não percebe;
O retirante num estado miserável
Só tem mesmo na boca o pranto inexorável
E o paladar do sal das lágrimas que bebe.
É o clamor do Nordeste contra a dor que o mata
No drama secular da natureza ingrata,
Mesquinha e vingativa, injusta e sem amor;
É o protesto do fel que lentamente escorre
N’alma de um povo herói que nasce, vive e morre
Com a resignação de ovelhas sem pastor.
“Não chove mais esse ano”, o camponês exclama!
Nem sequer uma nuvem amortece a chama
Do sol que sobre a terra bebe o seu libelo;
Começa a inquietação, a fome, o inferno humano,
Vem o primeiro horror com o derradeiro engano
E com a última esperança o início do flagelo.
Começam a emigrar os bandos desnorteados,
Deixando atrás de si as casas e os roçados
Onde o amor lhes floriu e a crença lhes nasceu;
Tudo ali fica entregue a Deus e ao abandono,
Encarando a saudade, a dor, a alma do dono
Que chora o único bem que agora se perdeu.
“adeus meu açudinho tórrido de sede,
Meu rancho onde jamais os punhos de uma rede
Rangerão a embalar o sono do meu filho;
Jamais nesse terreiro bêbado de lua
Verei minha filhinha descarnada e nua
Que já morreu de fome, à falta de um auxílio!”
Aqui só ficarão os prantos mais sentidos
De quantos vão deixar na solidão, perdidos,
O sepulcro de um filho, os ossos de seus pais...
Mas se a fome é cruel, se Deus nos é tirano,
Fique essa última dor do desespero humano,
Aumentando a desgraça que não finda mais.
Assim falam chorando os nordestinos:
Milhares de mulheres, homem e meninos,
Engrossando as correntes do êxodo rural...
E eles vão, oh meu Deus, nas mesmas circunstâncias
Das bíblicas legiões, outrora nas distâncias
Do deserto sem fim do arábico areal.
Pela estrada poeirenta os batalhões famintos
Desenham com seus pés, confusos labirintos
Que outros pés, a seguir, não tardam a apagar.
É o drama... É o desgraçado drama degradante
Do romeiro rural, do roto retirante
Sem rumo, sem arrimo e sem arranjo, a errar.
Sob o sol causticante, ao longo das estradas,
Em torno aos troncos nus das árvores peladas
Choram homens sem fé, mulheres infelizes,
Criancinhas mirradas, como cães sem dono,
Para iludir a fome e conciliar o sono,
Mordem cascas de pau, succionam raízes.
No olhar de cada mãe desesperada e aflita
Há uma dor que vem d’alma, estúpida, infinita,
Que o coração materno em convulsão retalha,
Por ver exposto ao sol adusto e fumarento
Seu filhinho morrer famélico e sedento,
Sem um pingo de água e sem qualquer migalha!
A tragédia traduz-se atrás de um toco tronco...
E o bando sem bandeira, abandonado e bronco,
Em pós de se prover do que o país promete,
Expõe-se, estaca, estanca, esvai-se, exclama, estua
E cansa e cai e ofega e chora e continua
Na mesma cena atroz que aumenta e se repete.
No silêncio da noite à beira de alguns poços
Onde exala mau cheiro e onde branquejam ossos,
O fantasma da seca faz assombração.
Há um clamor de inocentes, orações de adultos;
E em meio àqueles magros e sedentos vultos
Samaritana alguma estende a mão.
Mal nasce o sol de novo, aqueles desgraçados
Rotos, sujos, famintos, fracos, fatigados,
Recomeçam seu lento e incerto caminhar;
Tendo apenas de seu a consciência medonha
Da humilhação extrema e última vergonha
De andarem como cães, de porta em porta a uivar.
Ai meu Deus, quanto horror, que cena ultra-Dantesca!
Será que pode haver tragédia mais grotesca,
Gente mais desgraçada em condição mais vil?
Não pode não, meu Deus, porque essa caravana
Atingiu os extremos da miséria humana
E esbarrou na maior vergonha do BRASIL
Poeta Rogaciano Leite, em Carne e Alma.
sábado, 22 de setembro de 2012
TUDO É MERDA...
O mundo é simplesmente merda pura
E a própria vida é merda engarrafada;
Em tudo vive a merda derramada,
Quer seja misturada ou sem mistura.
É merda o mal e o bem merda em tintura,
A glória é merda apenas e mais nada.
A honra é merda e merda bem cagada;
É merda o amor, é merda a formosura.
É merda e merda rala a inteligência!
De merda viva é feita a consciência,
É merda o coração, merda o saber.
Feita de merda é toda a humanidade,
E tanta merda a pobre terra invade,
Que um soneto de merda eu quis fazer...
Poeta Damasceno Bezerra
E a própria vida é merda engarrafada;
Em tudo vive a merda derramada,
Quer seja misturada ou sem mistura.
É merda o mal e o bem merda em tintura,
A glória é merda apenas e mais nada.
A honra é merda e merda bem cagada;
É merda o amor, é merda a formosura.
É merda e merda rala a inteligência!
De merda viva é feita a consciência,
É merda o coração, merda o saber.
Feita de merda é toda a humanidade,
E tanta merda a pobre terra invade,
Que um soneto de merda eu quis fazer...
Poeta Damasceno Bezerra
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terça-feira, 18 de setembro de 2012
Das Pedras
Ajuntei todas as pedras
que vieram sobre mim.
Levantei uma escada muito alta
e no alto subi.
Teci um tapete floreado
e no sonho me perdi.
Uma estrada,
um leito,
uma casa,
um companheiro.
Tudo de pedra.
Entre pedras
cresceu a minha poesia.
Minha vida...
Quebrando pedras
e plantando flores.
Entre pedras que me esmagavam
Levantei a pedra rude
dos meus versos.
Cora Coralina
A história de Cora Coralina é belíssima. Ela foi descoberta em Minas Gerais, por uma jornalista que estava fazendo uma matéria sobre trabalho em pedreiras.
Na pedreira que visitou encontrou uma senhora velhinha, martelando pedras. A repórter se interessou por aquela criatura pequenina e pediu para lhe entrevistar. Ela deixou de lado a marreta e convidou a jornalista para tomar um café em sua casa. Enquanto preparava o café, entregou a jornalista um caderno onde escrevia poesias.
A jornalista chorou, e matéria não mais foi escrita sobre o trabalho em pedreiras, mas acerca daquela criatura encantadora que quebrava "pedras".
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domingo, 16 de setembro de 2012
De manhãzinha...
Eu beijo a face do dia
Na esperança da tarde
Vejo a fogueira arder
Pra revelar a maldade
Que o poeta arde
Pra decantar à saudade.
Pedro Torres
Na esperança da tarde
Vejo a fogueira arder
Pra revelar a maldade
Que o poeta arde
Pra decantar à saudade.
Pedro Torres
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sábado, 15 de setembro de 2012
Dos Livros
leio um livro,
o pensamento dilata;
a mente expande;
o espírito flutua;
o nó desata;
a verdade aparece;
o dia amanhence;
o tempo voa;
o poeta cria;
o enredo envolve;
a mentira dissolve;
o problema resolve
a rima acontece;
a notícia é boa;
o vento leva;
nasce a poesia.
Pedro Torres
o pensamento dilata;
a mente expande;
o espírito flutua;
o nó desata;
a verdade aparece;
o dia amanhence;
o tempo voa;
o poeta cria;
o enredo envolve;
a mentira dissolve;
o problema resolve
a rima acontece;
a notícia é boa;
o vento leva;
nasce a poesia.
Pedro Torres
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O Esclarecido!
Cuidado: Eu soube que ele lê livros!
Pedro Torres
Pedro Torres
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quinta-feira, 13 de setembro de 2012
Verdade demais
Quem nasceu no Sertão já sabe tanto
Que estiagem retorna, vez em quando...
É que a seca que aqui vive assolando,
Já é coisa normal do nosso canto.
Muitos sofrem co'a seca, por enquanto,
Outros lucram em busca de "devotos".
São Políticos a pé, de carro ou motos...
Prometendo de tudo ao nosso povo,
A insdústria da seca abriu de novo,
Pra vender ilusões e comprar votos.
Poeta Vinícius Gregório
Que estiagem retorna, vez em quando...
É que a seca que aqui vive assolando,
Já é coisa normal do nosso canto.
Muitos sofrem co'a seca, por enquanto,
Outros lucram em busca de "devotos".
São Políticos a pé, de carro ou motos...
Prometendo de tudo ao nosso povo,
A insdústria da seca abriu de novo,
Pra vender ilusões e comprar votos.
Poeta Vinícius Gregório
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terça-feira, 11 de setembro de 2012
Águas da poesia
Vez por outra, no semiárido nordestino, uma flor brota inesperadamente em meio a caatinga selvagem. E, muitas vezes, esse fenômeno ocorre justamente no período da estiagem, ou estação seca.
Como não podia deixar de ser, o povo sertanejo, vê nesse sinal, obra da criação divina.
Do mesmo modo parece acontecer com os poetas, vez por outra, surge daquele lugar uma poesia belíssima que de tão singela parece mesmo ser coisa do criador da natureza.
E assim se deu com esse verso o poeta Roberto Campos, trazido à nós pela poetisa Thaís Nunes:
'Amores são águas doces
Paixões são águas salgadas
Queria que a vida fosse
Essas águas misturadas
Eu que já fui afluente
Das águas da fantasia
Hoje moro mansamente
Nas águas da poesia'
Poeta Roberto Campos
Como não podia deixar de ser, o povo sertanejo, vê nesse sinal, obra da criação divina.
Do mesmo modo parece acontecer com os poetas, vez por outra, surge daquele lugar uma poesia belíssima que de tão singela parece mesmo ser coisa do criador da natureza.
E assim se deu com esse verso o poeta Roberto Campos, trazido à nós pela poetisa Thaís Nunes:
'Amores são águas doces
Paixões são águas salgadas
Queria que a vida fosse
Essas águas misturadas
Eu que já fui afluente
Das águas da fantasia
Hoje moro mansamente
Nas águas da poesia'
Poeta Roberto Campos
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Tic-Tac, Tic-Tac...
"'Os ponteiros parecem não girar
Tic-tac, espancando o meu ouvido,
Entretenho-me sempre convencido
Que você está perto de chegar.
A ausência do toque a me lembrar
A leveza das tuas digitais ,
Só com tua chegada subtrais
A angústia que vive a me envolver'
Quando passo um minuto sem te ver
A saudade em meu peito aumenta mais'"
-
Mote da poetisa Leillane Souza
Glosa do poeta Lima Júnior
Tic-tac, espancando o meu ouvido,
Entretenho-me sempre convencido
Que você está perto de chegar.
A ausência do toque a me lembrar
A leveza das tuas digitais ,
Só com tua chegada subtrais
A angústia que vive a me envolver'
Quando passo um minuto sem te ver
A saudade em meu peito aumenta mais'"
-
Mote da poetisa Leillane Souza
Glosa do poeta Lima Júnior
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Alentejo
Como é doce a língua,
A língua doce do beijo.
Como é doce o vinho,,
O vinho do Alentejo.
Pedro Torres
A língua doce do beijo.
Como é doce o vinho,,
O vinho do Alentejo.
Pedro Torres
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