Esperava voltar a primavera
Pra partir vendo as flores do caminho
Esperei sacudir da alma o espinho
Na jornada depois da vã espera
Fiz razão dos meus sonhos, da quimera
E o espelho não mais me refletia
Toda luz que no céu de mim jazia
Expandida por outra atmosfera
Solidão espantou-me essa pantera
Fez-me rasgos na pele no alvoroço
Do meu peito escavado fez-me poço
Donde encerro minh'alma ao fim da era
Fui menino criança que sonhava
Acrescido do tempo que me basta
Este ferro, se ardente, me vergasta
Quando em minas de mim antes dourava
Encarnecida minh'alma fez plena
Pra colher do jardim da esperança
Falecido meu sonho de criança
Fez alvo sutil da dura pena.
Recorri ao silêncio que bastasse
Entretanto meu grito inda silente
Fez de mim o reles penitente
Da espera do ferro que matasse
Fez-se inútil as vãs filosofias
Por degredo das frias poesias
Que restassem enquanto me avias
Algum nada que desse algum motivo
Nada doem de corpos indolentes
Nada rama na ausência de sementes
Nenhuma alma por tanto descontentes
Brotaria na ausência de um ser vivo.
Pedro Torres