terça-feira, 6 de maio de 2014

23 Sonetos

Paciência

Quem no amor quer ter reciprocidade
Antes tem que aprender a dar valor.
Porque a vida apresenta-nos o amor
Mas, nem sempre, já traz felicidade.

Quando o amor se divide na metade
Uma parte, na ausência, sente dor
Mas, tem outra (a que dá pra vida cor)
Essa fica escondida na saudade.

É por isso que o amor é paciente
Tudo crê, tudo sofre, tudo sente
Tudo espera e, suporta a sua cruz…

Vence todo o deserto das agruras
Atravessa o cansaço das lonjuras
Pra chegar ao destino de ser luz!

Esperar

Todo o tempo que a vida demandar
Pra que eu possa dizer que fui feliz
(Pela hipótese de a vida não ter bis)
Eu prefiro, no amor, sempre esperar.

Porque o tempo não custa pra passar
E, no caso, não tem melhor juiz
Pois, o corte ou se torna cicatriz
Ou o amor que sangrou pode voltar.

Outro amor como o nosso não é fácil!
Não se imita o licor da Flor do Lácio
E ter pressa não faz, antes, chegar...

Se a Saudade me segue machucando
Eu te espero, ainda que sangrando,
Todo o tempo que a vida demandar!

Tu!

Fios dourados das manhãs de maio
Frescor da brisa das auroras lindas
Calma contente de tristezas findas
Cena de risos, texto sem ensaio.

Gota que orvalho à flor deita em desmaio
Brilho estelar das noites infindas
Fertilidade das chuvas bem vindas
Bonança acesa no clarão dum raio.

Musa da lira dum poeta parco
Erato amável a guiar meu barco
Neste oceano de teu mar sem fim...

Perdoa-me tanto me faltar motivos
Não ter palavras, verso, adjetivos
Que digam tudo que tu és pra mim!

"Sem se falar…"

Se o silêncio não mente e poderia,
No máximo, ocultar uma verdade
Que tu me esconderias: ter saudade
Ou a vaidade de quem não me queria?

Tu quiseste, portanto, a realidade
É que ocultas de mim a nostalgia
De não creres no amor que eu te teria
Ou no qual tu me negas por maldade...

Se eu me calo e, assim mesmo, tu me escutas
Não pareces ser das gentes astutas
Mas, ao menos, assim, tu não me mentes…

Pois, se sabes de mim tudo que sinto
E eu te amo e a mim mesmo eu nunca minto
É amor, oras, o que por mim tu sentes!

Navegar

No vazio silêncio do meu peito
Sem ouvir os sinais, sem direção
Meu caminho se perde, sem a voz,
Da saudade que fala ao coração.

Se o poeta não vive sem o amor
E, por sorte, Deus quis me ver poeta
Sem te ter ao meu lado, sem senti-la
A minh'alma intranquila se aquieta.

Eu não sei viver sem o teu afago
Poesia pra mim é como o lago
E teu colo pra mim é como o mar...

Sem te ter é inútil até morrer
Que o poeta não sabe nem viver
Se não tem seu amor pra navegar.

Vazio

Nesse vazio que meu peito sente
Há quase tudo que tu não levaste,
Da imensa falta que tu me deixaste
A tua ausência que se faz presente.

És tudo e nada, estrela displicente,
No brilho opaco desse meu contraste
Desde o amor próprio que sofreu desgaste
Até a carência forte e inconsequente.

Se o teu calor na minha alma teima
É que a vontade de tão forte queima
E ninguém foge de sentir vontade…

Tua lembrança, mesmo de relance,
Até conforta, na morte da chance,
Só não suporto mais tanta saudade!

"Eu não me iludo mais!"

Eu já te disse que eu não mais me iludo
Com tuas frases lindas e perfeitas...
Quero a certeza das promessas feitas
Realizadas, uma a uma, e tudo!

Eu quero o abraço, com que me endireitas
E essa saudade morta... sobretudo!
Eu quero a pele tua de veludo
Incendiada nas chamas refeitas!

Quero matá-la de amor e carinhos
Nestes meus braços cansar-te de aninhos
Curar-te a sede com litros de beijos

Mas, eu preciso ser-te bem sincero
Faz tanto tempo que eu tanto te espero
Que já não cabe em mim tantos desejos!

"Teto de Estrelas"

Esse teto de estrelas sobre a gente
Brilha mais quando está na escuridão
De igual forma, a saudade no sertão
Faz mais perto a distância pra quem sente.

E quando a alma se toca, é indiferente
Se houve "tempo perdido" e solidão
Que um abraço conserta o coração
Onde a emenda sequer fica aparente.

Se o meu peito optou por te esperar
Quem sou eu pra querer contrariar
Essa voz do querer que não se quis?

E ao lembrar-me do amor que tu possuis
A minh'alma rebrilha o mar de luz
Da beleza que tens quando sorris!

Fronteiras

Muito além das fronteiras da amizade
Nosso amor se fez sólido cumprindo
Do querer bem ao outro nunca findo
Ao que nasce pra ser eternidade.

Pois, o amor sempre traz felicidade
Mas, não dá pra viver sempre sorrindo
Já que há dias que a lágrima caindo
Molha o chão da lembrança, e dá saudade…

Não me esqueço de ti! Meu sofrimento
É saber que a distância no momento
Em que lembro não faz a dor passar.

E me afasto, meu bem, pra não sofrer
Que é enorme a diferença entre esquecer
E viver sem poder nem mais lembrar.

Carma

Relembrando um romance do passado
Numa história na qual eu fui vilão
Posso, enfim, ter chegado a conclusão
Que hoje eu pago, contigo, o meu pecado.

Eu não fiz por querer, mas, enganado
Pela força insensata da atração
Foram quase dois anos de ilusão
E o meu erro ao final foi perdoado.

Pois, se cada existência é exclusiva
Sempre frustro, em mim mesmo, a expectativa
Quando penso em voltar, seguindo a norma...

Quem me quis, talvez, não me queira mais
E eu te quero, mas, nunca volto atrás
Porque podes pensar da mesma forma!

Insistência

Com você insistindo em fazer falta
Os meus dias têm sido de amargura
Que é terrível ficar nesta lonjura
E o silêncio gritando na voz alta.

No apagar-se das luzes da ribalta
Que minh'alma perdida te procura…
Como se não bastasse essa tortura
Vem mais essa distância ditar pauta.

Compreendo as razões de meu tormento
E respeito, demais, o teu momento,
Mas, prefiro calar a voz que o exalta…

Sóbrio, ainda, refém da realidade,
Só não sei mais conter tanta saudade
Com você insistindo em fazer falta!
"O que queres?"

O que queres que eu diga? Que não quero?
Que cansei de esperar que te decidas?
Que a saudade presente em nossas vidas
É por causa de mim, que nunca espero?

Ou tu queres saber se te venero
E haverão outras estações floridas?
Se as lembranças quedaram-se partidas
Ou o que resta de nós é quase zero?

Se o teu cheiro inda está na minha roupa...
Se minh'alma padece quase louca...
Ou se o tempo caminha feito lesma...

Se não somos no amor tão diferentes
E o que eu sinto é igualzinho ao que tu sentes
Pois, pergunta de mim para ti mesma!

Sonho meu!

"O que tens é só teu" ...ninguém te altera!
Tua essência, aliás, é inviolável...
Nesse olhar de mistério indecifrável
Tens bem mais que a ilusão de uma quimera.

És ver taça de luz da primavera,
Tanto néctar da flor ...admirável!
És beleza sublime, ser amável,
És a fonte de dor de quem te espera!

És meu mar, no oceano teu, absorto!
E teu colo, pra mim? Último porto,
Onde atraco meu barco junto ao teu!

És a minha saudade mais sentida!
És a vida que tem dentro da vida!
És a parte melhor que Deus me deu!

Exigência

Fiz de tudo que pude e que não pude
Contornando nas crises tua ausência
Pois, não queiras cobrar-me paciência
Se não queres mudar tua atitude.

Só quem vive a esperar que a vida ajude
Nunca prova o sabor da experiência.
Pois, se falto ao fazer-te uma exigência
Ter orgulho, também, não é virtude!

Quando tudo é silêncio, e estás ausente,
Eu não sei que delírio faz-me a mente
Ir além destas linhas que redijo...

Se me perco de mim, nesta ansiedade,
E me abraço ao torpor duma saudade
A minh'alma reclama, e eu te exijo!

Ironia

Ah! se soubesse como o verso nasce...
Da pontiaguda dor da realidade
Da voz aguda da desigualdade
Talvez, se amasse, nunca mais amasse!

E, então, fugisse do que não renasce
Do sonho inútil de matar saudade
Do vil tormento de sentir vontade
E ter que dá-la pra que o tempo passe...

Quem sabe, assim, se toda dor sentisse
E se voltasse pra que alguém sorrisse
As dores todas fundas se findassem...

Talvez, notasse, veja que ironia
Que se calava toda a poesia
Quando os poetas todos se calassem!

Motivos

Quando a vida cruzou nossos caminhos
Eu não pude entender o seu propósito.
Que meu peito tornara-se um depósito
De tristeza, comum entre os sozinhos.

Sequer pude notar a transição
Entre aquilo que estava e agora era.
Quando fui perceber a primavera
Era tarde demais pra dizer não!

Assim como, a primeira iniciativa,
A segunda que trouxe a negativa
Me tomou de repente, e sem porquê!

Nesse amor que à saudade se moldava
Quando, enfim, compreendi quanto te amava
Era tarde demais pra ter você!

Detalhes

Deus te deu mil encantos, formosura
E a textura da pele inspira o pêssego
Deu-te um ar de mistério e um beijo sôfrego
E uma luz que é pra escuridão ter cura.

Pôs em ti os segredos divinais
Da doçura do sumo da romã
Teu sorriso traduz uma manhã
Das auroridades celestiais

Do vermelho da boca à tez da face
Há detalhes, minúcias de quem nasce,
Nas belezas que não sabem ser rudes

Mas, se tudo que tens surgiu de Deus
Pois, acode o clamor dos versos meus
Deixa o mundo acabar-se, mas, não mudes!

"Mil vezes!"

Tua ausência incomoda, mas, não deixa
De ser uma lição de realidade
Pois, é inútil querer quem não se queixa
De outro lado, também, de ter saudade.

E a saudade faz parte, mas, não pode
Ser a essência maior de quem se ama
Que não importa, contanto, que incomode
Ela gosta é do peito que se inflama.

Cada dia que passa é mais cinzento
E não dá pra apagar do pensamento
Que a lembrança se enrosca feito um nó...

Sendo assim, eu também de ti me afasto
Que se for por amor pouco e já gasto
Eu prefiro mil vezes ficar só!

"Quase!"

Como um jogo de amor sem ter respostas
Para as muitas perguntas que calamos...
No silêncio, a saudade que escutamos
Faz a sorte pra nós virar as costas.

Se o destino zerou nossas apostas?!
Cada chance que nós desperdiçamos
Cobrou juros de tudo que sonhamos
Pelas cartas que nunca foram postas!

Sem julgar as questões da pouca idade
E os pecados da nossa ingenuidade
Nosso amor passou da primeira fase...

E mesmo hoje não sendo o mesmo nível
O que houve entre nós foi tão incrível
Que se não foi o céu, inda foi "quase!"

Sonhos

Nosso amor se perdera por completo...
Não restava mais sonho ou esperança
E só às vezes à luz de uma lembrança
Eu sentia o meu ser mais inquieto.

Tanto amor declarado, tanto afeto,
Resumidos à falsa insegurança
De quem nunca mostrou ter confiança
No que o peito dizia ser concreto.

Triste fim! Eu pensava... e meu cansaço
Reclamava, na ausência de um abraço,
Descontente por ter chegado ao fim...

Muito tempo depois, adormecido,
Sonhei sonhos de um filme colorido
E acordei com você dentro de mim.

"Esse rio..."

Pajeú que não passa, eu estou indo
Para ver o teu chão umedecido.
Quero ver outro dia amanhecido
E teu corpo de verde se cobrindo.

Quero ver tua mata reflorindo
Ver teu leito de novo abastecido
E um "sereno" recém adormecido
Na manhã que nasceu de um sonho lindo.

Pelas praças, felizes namorados
Se escondendo da luz, incendiados,
Nos abraços que aquecem-lhes do frio...

Contemplar o raiar de uma alvorada
E cantar-te contente, a passarada,
Serenatas nas margens desse rio.

Teimosia

Se esse meu coração me obedecesse
Eu, talvez, já tivesse me esquecido
Mas, meu peito (por mim mesmo traído)
Nem parece querer que não doesse.

Ah! Se ao menos de longe conhecesse
As maldades de alguém, por precavido,
Bateria mais calmo, advertido,
Que seria melhor se nem batesse...

E essa dor lancinante que te corta
Não pulsava de novo em tua aorta
Pelo sangue de quem não te queria.

Sempre apanhas por não saber bater.
Coração, por acaso se eu morrer
Foi por causa da tua teimosia!

"Veneno!"

Devo ainda lembrar, de vez em quando,
Porque amor não se apaga como o giz.
Fica o corte, e se forma a cicatriz,
Que com o tempo, também, vai se apagando…

Se eu fiquei com meu coração sangrando
Foi, talvez, porque um dia fui feliz
Por julgar ser sincera aquela atriz
Sem notar quanto estava me enganando.

Ela jovem, bonita, toda encanto,
Suas juras me convenceram tanto
Que eu jurava ter conhecido o céu…

Ledo engano e, somente agora, eu vejo
Que o veneno contido no seu beijo
Era muito pior que a cascavel!

Pedro Torres
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