segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Debandada

Me veio à mente esse mote, não tenho certeza de o ter criado. Penso que seja um daqueles versos que ficam vagando no ar, ou na memória.

Voei como um passarinho
Por entre relvas cheirosas
Sentindo o cheiro das rosas
Sem querer voltar pro ninho
Mas, me perdi no caminho
Desse lugar diferente
Que o destino é indulgente
E não perdoa a quem erra
Vou voltar pra minha terra
Que eu lá me sinto gente

Passei por terras distantes
Lugares ermos, sombrios
Senti abalos, calafrios
Conheci outras vazantes
Nos meus voos delirantes
Cruzei rios, vi enchente,
Mas, deixei uma semente
Lançada num pé de serra
Vou voltar pra minha terra
Que lá eu me sinto gente

Também conheci amores
Voando em campos risonhos
Eram florestas de sonhos
Com plantas de todas cores
Mas, depois senti as dores
De uma saudade imprudente
Dessas tão inconsequentes
Que só um coração desterra
Vou voltar pra minha terra
Que eu lá me sinto gente

Vi tantas garbosas flores
Quando arrebentava o dia
Enquanto voava eu sentia
Faziam festas de odores
Mas, perdi todos sabores
Nesse meu voar plangente
Como o passeio pungente
Que de repente se encerra
Vou voltar pra minha terra
Que eu lá me sinto gente

Pedro Torres

domingo, 28 de outubro de 2012

nadinha

sem ter você
sem te conhecer
sem o teu olhar
sem tua pele
sem tua boca
sem teu sorriso
sem teu querer

sem teu carinho
sem o teu calor
sem teu sabor
sem tua magia
sem teu amor
sem teu ardor
sem alegria

sem ter cansaço
do teu abraço
sem o teu beijo
sem teu desejo
sem sentir medo
sem ser segredo,
eu nada seria.

Pedro Torres

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Signos

Sob as estrelas do céu infinito
Quando me olhas eu me sinto exposto
Às luzes lindas que saltam do teu rosto
E tudo parece, mais vivo e bonito
Brota do peito, uma música, um grito
Não que não queira, não que não possa
Seremos o samba, faremos a bossa,
Assim, nunca mais nos sentiremos sós
E se os astros depuserem contra nós
A gente faz uma constelação só nossa.

Pedro Torres

terça-feira, 23 de outubro de 2012

O amigo 'cafajeste'!

Toda mulher devia saber que vez por outra vai precisar de um amigo cafajeste. Daqueles sujeitos que ficam na moita, esperando a presa passar pra ele dar o bote. Um 'fura olho' a espera de um vacilo do colega!

Assim, quando se decepcionasse com alguém, o amigo cafajeste estaria lá, pronto pra concordar com cada palavra que ela dissesse.

Ela: Imbecil.
Amigo cafajeste: É um inútil.

Ela: Idiota.
Amigo cafajeste: Completamente idiota.

Ela: Um galinha, isso que ele é!
Amigo cafajeste: E põe galinha nisso. Sujeito sem escrúpulos!

Ela: Eu preciso de alguém que me compreenda.
Amigo cafajeste: E que lhe dê carinho, atenção, respeito. Tudo que você merece!

Ela: Eu preciso de um amor de verdade.
Amigo cafajeste: Você precisa de alguém que esteja sempre ao seu lado, que te dê a mão e te convide pra jantar.

Ela: Mas onde vou arrumar alguém assim?
Amigo cafajeste: Não faço ideia, mas, essa conversa deu uma fome. Você não quer sair para jantar?

|haha

Pedro Torres

domingo, 21 de outubro de 2012

Panos

No mote da poetisa Mariana Teles, eu disse:

Não há amor que eu me arrependa
De uma vírgula sequer do que amei;
Os farrapos dos sonhos que sonhei
São as tiras inconsúteis da fazenda
Que um dia, sem nódoas, sem emenda,
Enfeitou um palácio em minha mente
Mas a sorte cruel, inconsequente
Teceu planos diferentes no lugar
'Que um pedaço da alma quer chorar'
No caminho da volta de um repente

Pedro Torres

Reconstrução

Eu construí um castelo
Todo feito de palavras
Mas, ouvi de tuas lavras
Um discurso lindo e belo.
Ele enfraqueceu o elo
Que havia entre elas
Com tuas palavras belas
Mataste o que não podia
E eu fiz uma poesia
Do resto que sobrou delas

Pedro Torres

sábado, 20 de outubro de 2012

Dimas e Otacílio Batista

Dimas Batista cantado com Otacílio, recebeu um mote por telefone, no ar, em um programa de rádio em Caruaru.

Mote:
Eu te amo, te prezo, te venero;
Só a morte separa o nosso amor.

Saíram vários versos dos dois, mas, na lata, Dimas disse:

Eu te vi, tu me viste, nós nos vimos,
Eu te amei, tu me amaste, nos amamos,
Eu te olhei, tu me olhaste, nos olhamos,
Eu sorri, tu sorriste, nós sorrimos,
eu senti, tu sentiste, nós sentimos
Os encantos de um sonho promissor.
Encontrar-te ao meu lado, aonde eu for,
É da vida a ventura que mais quero.
Eu te amo, te prezo, te venero;
Só a morte separa o nosso amor!

Poeta Dimas Batista. Caruaru, 1958.

Nesse mote nós dissemos:

Todas juras-promessas que te fiz
De amar-te por toda eternidade
Resistiram aos sopapos da saudade
Hoje és a promessa que mais quis
É a luz que ilumina e faz feliz
Linda flor do jardim, de mais olor
És do sol da manhã, todo esplendor
Se te quis, vou querer e inda quero
Eu te amo, te prezo, te venero;
Só a morte separa o nosso amor!


Amar-te de outro jeito eu não sei!
Não conheço existir outra maneira
Que vivermos amor a vida inteira.
Por estradas desertas eu caminhei
Bem na curva do caminho, te esperei
Decorando o cenário pra compor
Um poema na vida do escritor.
Te esperei, esperaria , e, 'inda' espero
‘Eu te amo, te prezo, te venero
Nem a morte separa o nosso amor’

Pedro Torres

Eu não meço distância nem barreira
Preocupada não fico, te espero
Eu te sinto, te gosto e te quero
No país do amor és a bandeira
Na descida das águas, cachoeira
Derramando teu mel na minha flor
E fazendo teus olhos beija-flor
Pra tocar meu sorriso mais sincero
Eu te amo, te prezo, te venero
Nem a morte separa nosso amor

Poetisa Mariana Véras

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

De repente

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Do Poetinha Vinicius de Moraes

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Reserva

Vê-se imerso em segredo
O poeta quando ama
Pra preservar sua dama
Guarda o seu nome o aedo
Amando sem sentir medo
Bem se entrega de verdade
E pede: por caridade,
Ame muito e queira bem.
Sem poder dizer de quem
É triste sentir saudade

Quer saber o quanto dói
Uma saudade infinita
Ame a pessoa mais bonita
Espere o que se constrói
Que o ácido tempo corrói
A essência de alguém
Por amar e querer bem
Sem gozar da liberdade
"É triste sentir saudade
Sem poder dizer de quem"

O amor é algo tão bonito

Não há razão pra se esconder
Antes de encontrar você
Meu coração tava aflito
Mas, um proceder restrito
De alguém que ama alguém
Pra zelar o querer bem
Esconde a linda verdade
É triste sentir saudade
Sem poder dizer de quem

Pedro Torres

Mote do poeta Jânio Leite, invertido na primeira estrofe.

Prece à colibri

Não vai agora, fica um pouco mais...
Escuta a paz que se aproxima de ti.
Que removerá todos aqueles ais
E te soará como o canto da colibri.

Que te deixará desconcerta, sem graça
Como se sem graça, um dia, pudesses ficar
Não liga, tudo isso num instante passa
Abre a janela, pois, e deixa o amor entrar.

Quem sabe o conforto que hás de sentir
Seja tão imenso quanto o teu coração espera
Quem sabe, enfim, terá chegado a primavera
E florirá, tudo o que sonhavas florir.

Quem sabe o amor te tome, de tal maneira
Que não fique noite sem estrela
Nem céu azul na manhã mais verdadeira
Que tu não querias sentir, tocar, e tê-la.

Fica bem.

Pedro Torres

Solo

Dia desses, proseando com uma pessoa no Facebook até altas horas da madrugada, senti que algo me foi tomado de súbito quando a hora se passou sem que eu notasse, até fugindo da normalidade e, 'repentinamente', o colóquio chegou ao fim.

O galo cantava quando terminou o papo, a passarada dava os primeiros sinais de vida e o céu começava a clarear.

Busquei ainda encontrar algo que me livrasse da solidão que sentia naquele instante ou um alento pro meu coração poeta e encontrei um mote do poeta Henrique Brandão, e pude redigir essas linhas, quando disse:

O frio tomou a praça
Que anjos faziam festa
O galo cantou seresta
Pra mostrar o tempo passa
E com cristalina taça
Celebramos a união
De um, mais outro, coração.
Onde o amor quedou silente
Quer conhecer a paixão
Conheça a história da gente.

E foi assim que meu dia terminou.

Pedro Torres

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Iluminar

Quero um mundo inteirinho teu...
Que me rouba a paz, a calma,
A paciência, os olhares, e todo meu ar.
No silêncio que antecede o beijo...
Sentir o calor e o teu desejo,
Ouvir o som, aquilo bom, e te abraçar.

Decorar o teu olhar e a tua fala,
Os teus gestos, e de nada mais lembrar...
Perder o tino e, em desatino, sentir-se à toa
Dar as mãos, viajar bem longe, ficar numa boa.
Rir dos ciúmes, dos cheiros, dos perfumes e de tanto pudor;
Amar sem queixumes, contar vaga-lumes e morrer de amor.

Pedro Torres

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Lagamar

Na casa que eu morei
Quando eu era criança
Tem as coisas que deixei
Pra viver só da lembrança
Mas eu tenho a esperança
De quem sabe num janeiro
Eu voltar pro meu terreiro
E na saudade dar fim
É que pai fez um jardim
Onde era o juazeiro.

Pedro Torres

Mote sacado pelo poeta Maurício Menezes, numa frase dita espontaneamente por Danilo Torres, meu irmão.

O país e a roseira

O País é uma roseira,
A pobreza é a raiz;
No trabalho é a primeira
Na sorte a mais infeliz...
A haste, a escadaria
*Por onde a aristocracia
Sobe os degraus a vontade;
Deputados, senadores,
Desta roseira são flores
Sem responsabilidade

A raiz desta roseira
Está no estrume enterrada;
Ali passa a vida inteira
Do mundo não goza nada;
As rosas estão em cima,
Arejadas pelo clima,
Cada qual quer ser mais bela
Mais garbosa, mais feliz,
Esquecidas da raiz
Que vivem à custa dela

Espinhos por guarnição
Ainda a roseira tem;
Eis os soldados que são
Guardas dos grandes também;
Negam ao pobre o que é propício,
Sujeito ao sacrifício,
Cumpridor do seu dever
Mas, por não ter ideal,
Termina no lamaçal
Uma vida sem viver...

Em seu silêncio profundo,
O pobre é quem está de pé;
Passando a vida no mundo
Sem saber o mundo onde é.
Lá solitário, sozinho,
Foi a base do caminho
Por onde o grande passou,
Esquecido, em bom lugar,
Em cima, sem perguntar
Quem para ali o levou.

Os votos da populaça,
O candidato a rogar...
A rosa esmola, por graça,
Água para não murchar;
Porém depois de votados
São para cima levados,
Ali ficam como quem
Subiu passo a passo, a esmo,
Conduzidos por si mesmo
Não devem nada a ninguém.

Proprietários da sede
Os grandes quando não são,
Estão como a rosa que pede
Água pra vegetação;
Depois de bem irrigada,
De flores bem enfeitada,
Deu-lhe o inverno a ação;
Adorna num apogeu,
Esquece de quem lhe deu,
Água quando era verão.

Poeta Antônio Marinho, o Águia do Sertão, ou Rei dos Cantadores (Filho, Aleixo – 1972)

*Esta frase não está publicada no livro, mas, é como a conheço.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Prece antes de dormir...

não durmas triste,
não vale a pena o pranto
por acreditar-se só,
ou que os teus sonhos
tenham-se quedados esquecidos..

mas, antes, silentes, adormecidos
à espera de o teu coração contente.
sorri, e oferta teu lado mais gentil
ao passar do tempo
e à saudade que te fere.

acorda teus olhinhos para o amor divino
faz graça dos percalços, pois não duram
empresta ao dia a companhia do teu sorriso
e busca a felicidade nas coisas simples.

valoriza o abraço fraterno,
sê sincera e amorosa,
crê na vida antes do anoitecer
que o sol não tarda em volver.

se porventura uma lágrima te fugir
deixa esta prisioneira viver a liberdade de um instante.
acompanha o seu movimento por tua face
e alegra-se com o calor que te oferta.

pende teu cabelo ao vento,
permite à tua mão,
de palmas às escâncaras,
que toquem as manhãs todas desta primavera.

sente o perfume das flores,
o frio da madruga,
segue a um lugar tranquilo...
ao abrigo da luz divina.

o cheiro da maresia da praia;
brinca com as espumas das ondas.
toca a bruma; pisa a areia branca;
fecha os olhos e dorme.

ao acordar leve, lembras: a tua existência
é a razão de muitos, e de Deus.

fica bem

Pedro Torres

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Joia rara

Parece dois diamantes
Brilhando igualmente a lua
Quando os encontro na rua
Noto eles radiantes
Vou lembrando dos instantes
Que você me olhou sorrindo
Eram flores se abrindo
Em seus olhos acastanhados
Vi dois brilhantes cravados
Num rosto moreno e lindo.

Uma joia rara, garimpada numa mina de poesia pela poetisa Lucélia Santos

Imigrantes

‎"Com desgosto cortando o coração
Todo dia assisto achando ruim
Vendo os ônibus da Itapemirim
Carregar os heróis do meu Sertão
Que por falta de chuva, emprego e pão
Deixam filhos, esposa, irmãos e pais
E vão embora, viver nas capitais
Onde às vezes pioram as suas crises
Poucos deles conseguem ser felizes
Muitos deles nem podem voltar mais..."

Poeta João Paraibano

Insone

Encantam-me as palavras
Adornam-me os verbos
Os meus poemas...

Roga-se às letras
O condão das lavras
Redescobertas.

Completa-me o vazio
Encho-me da ausência
Em meu canto.

Inquieta-me a completude
Fragmentos inteiros
Reatam.

Pende-se ao silêncio
À noite inquieta
E resta acordada.

Pedro Torres