quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Dias das Mães

Mãe! Eu volto a te ver na antiga sala
Onde uma noite te deixei sem fala
Dizendo adeus como quem vai morrer.
E me viste sumir pela neblina,
Porque a sina das mães é esta sina:
Amar, cuidar, criar, depois... Perder.

Perder o filho é como achar a morte.
Perder o filho quando, grande e forte,
Já podia ampará-la e compensá-la.
Mas nesse instante uma mulher bonita,
Sorrindo, o rouba, e a velha mãe aflita
Ainda se volta para abençoá-la

Assim parti, e nos abençoaste.
Fui esquecer o bem que me ensinaste,
Fui para o mundo me deseducar.
E tu ficaste num silêncio frio,
Olhando o leito que eu deixei vazio,
Cantando uma cantiga de ninar.

Hoje volto coberto de poeira
E te encontro quietinha na cadeira,
A cabeça pendida sobre o peito.
Quero beijar-te a fronte, e não me atrevo.
Quero acordar-te, mas não sei se devo,
Não sinto que me caiba este direito.

O direito de dar-te este desgosto,
De te mostrar nas rugas do meu rosto
Toda a miséria que me aconteceu.
E quando vires e expressão horrível
Da minha máscara irreconhecível,
Minha voz rouca murmurar: ''Sou eu!"

Eu bebi na taberna dos cretinos,
Eu brandi o punhal dos assassinos,
Eu andei pelo braço dos canalhas.
Eu fui jogral em todas as comédias,
Eu fui vilão em todas as tragédias,
Eu fui covarde em todas as batalhas.

Eu te esqueci: as mães são esquecidas.
Vivi a vida, vivi muitas vidas,
E só agora, quando chego ao fim,
Traído pela última esperança,
E só agora quando a dor me alcança
Lembro quem nunca se esqueceu de mim.

Não! Eu devo voltar, ser esquecido.
Mas que foi? De repente ouço um ruído;
A cadeira rangeu; é tarde agora!
Minha mãe se levanta abrindo os braços
E, me envolvendo num milhão de abraços,
Rendendo graças, diz: "Meu filho!", e chora.

E chora e treme como fala e ri,
E parece que Deus entrou aqui,
Em vez de o último dos condenados.
E o seu pranto rolando em minha face
Quase é como se o Céu me perdoasse,
Me limpasse de todos os pecados.

Mãe! Nos teus braços eu me transfiguro.
Lembro que fui criança, que fui puro.
Sim, tenho mãe! E esta ventura é tanta
Que eu compreendo o que significa:
O filho é pobre, mas a mãe é rica!

O filho é homem, mas a mãe é santa!
Santa que eu fiz envelhecer sofrendo,
Mas que me beija como agradecendo
Toda a dor que por mim lhe foi causada.
Dos mundos onde andei nada te trouxe,
Mas tu me olhas num olhar tão doce
Que, nada tendo, não te falta nada.

Dia das Mães! É o dia da bondade
Maior que todo o mal da humanidade
Purificada num amor fecundo.
Por mais que o homem seja um mesquinho,
Enquanto a Mãe cantar junto a um bercinho
Cantará a esperança para o mundo!

Poeta Giuseppe Ghiarone, destacado pela Poeta Priscila Filó

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Dom

Só quem tem dentro do peito
Uma alma inrrequieta
E dois pés que vão em frente
Mesmo sem saber a meta
Quem é são e faz loucura
Sabe o amargo e a douçura
De ter nascido poeta.

Brás Costa.

domingo, 27 de novembro de 2011

Dimas Batista

Quando um dia, poeta, não puderes
Externar esse canto que insinuas
Quando a ausência de todas as mulheres
Encher de tédio a solidão das ruas

Quando o tempo passar, e tu morreres
E o povo recitar as canções tuas
Quando a cinza dos versos que escreveres
Vestir de chama as consciências nuas

Quando chegar o fim das tuas metas
Quando faltar a todos os poetas
A inspiração constante que te ocorre

Quando a taberna não tiver mais vinho
Teu violão há de chorar sozinho
Essa morte incomum de quem não morre.

Poeta Dimas

DOIS COQUEIROS - CANCÃO

Testemunhas seculares
Do outro lado do rio
Rumor das brisas lunares
Nas calmas noites de estio
Foram vigias de feras
Venceram eras e eras
Se tornaram centenários
Os seus bulícios tristonhos
Tinham a doçura dos sonhos
De mil poemas lendários.

Com prazeres recebiam
O pequeno rouxinol
Eram os primeiro que viam
A face alegre do sol
Sentiram as mesmas mágoas
Beberam das mesmas águas
Queimados do mesmo pó
Colheram o mesmo sereno
Viveram num só terreno
Nasceram num dia só.

Com todo viço aumentaram
As duas plantas vizinhas
Em pouco tempo chegaram
Ao mundo das andorinhas
Neve, chuva e cerração
Frio, sereno e verão
Nada disso o atingiram
Vencedores das idades
Nem as próprias tempestades
Tempo algum lhes aluíram.

Nas brisas que perpassavam
Brandas ou mais violentas
Eles os dois conversavam
Numas frases barulhentas
Receberam temporais
Deslocamentos fatais
Por brusco arrojo dos ventos
Viveram nestes combates
Lutando contra os embates
Da força dos elementos.

Assim aqueles coqueiros
Cheios de viço e enganos
Se tornaram dois guerreiros
Foram lutar contra os anos
Um ao outro em homenagem
Nos bafejos da aragem
Estendiam a palha sua
Cada fronde, verde e bela
Conservava uma parcela
Da luz serena da lua.

Suas palhas sussurrantes
Continham graça e beleza
Dois monstruosos gigantes
Criados da Natureza
Desde a fronde às raízes
Todas suas cicatrizes
Foram profundas feridas
Cada marca, uma história
Uma medalha, uma glória
De cem batalhas vencidas.

Em certos dias marcados
Choveu torrencialmente
Foram os dois abraçados
Por poderosa corrente
Um rodava, outro pendia
A água se remexia
Numa fúria de dragão
O mais fraco, já vencido
Num arrojo desmedido
Caiu sem ter salvação.

Ficou o outro coqueiro
Em meio à corrente, em pé
Como se fosse um guerreiro
Sem esperança e sem fé
Se balançava, tremia
Tombava, depois se erguia
Entre o furor do perigo
E a morrer se dispunha
Como a maior testemunha
Da morte de seu amigo.

No horroroso fragor
Já se mostrava pendido
Sentiu faltar-lhe vigor
Foi ficando esmorecido
A água em borbotão
Fazia revolução
Da superfície à areia
Caiu no mesmo momento
Ao impulso violento
Dos solavancos da cheia.

As grandes vagas caudais
Desciam ligeiramente
Sem ter resistência mais
Se lançou sobre a corrente
O aguaceiro o levou
E junto ao outro deixou
Por um ligeiro desvio
Ficando os dois encostados
Onde estão sepultados
Do outro lado do rio.

João Batista de Siqueira, Cancão. Transcrição textual do livro Palavras ao Plenilúnio.

sábado, 26 de novembro de 2011

Eva e a maçã, no paraíso...

O diabo disse a Eva: "Queres ser igual a Deus?
Coma o fruto proibido e depois os olhos teus
Se abrirão pra tudo veres
E daí os teus poderes
Serão maiores que os meus".

Disse Eva decidida: "Vá de retro santanás
No jardim tem muitos frutos, eu comerei os demais
Só a Deus darei ouvido
E do fruto proibido
Eu não comerei jamais."

Beuzebu ouvindo aquilo, pensou que quase enlouquece
"Que danado irei dizer pra que ela se interesse"?
Já sei!!! -Disse o mau conduta-
"Coma mulher que essa fruta
Além de doce, EMAGRECE!!!!"

Brás Costa

Prospectos

O Poeta Felisardo Moura Nunes trouxe esses versinhos:

Olho e vejo a mão divina
Num botão de flor se abrindo
No berço que uma criança
Sonha com Jesus sorrindo
A mão caçando a chupeta
Que a boca perdeu dormindo.

Do Poeta João Paraibano, e esse outro:

Quando eu era criança
Sem escola em minha terra
Não sabia que as armas
Eram feitas para a guerra
E pra mim o mundo acabava
Do outro lado da serra

Do Poeta Severino Feitosa

E, a Poeta Monique D'Angelo destacou:

Deus impôs ao poeta seus misteres
Desde os passos primeiros à velhice,
Junto ao monte Parnaso, Deus lhe disse:
Eu darei para ti o que quiseres.
Comerás dos poemas que fizeres,
Beberás do teu verso cristalino
Quando a musa afastar-se eu te ensino
A cantar as canções do meu amor,
Cantador de viola é portador
 Desses dons luminosos do Divino.

Poeta Zé Luiz

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Manoel Xudú

O Poeta Eduardo Rabello garimpou essa pedra rara:

Admiro 100 formigas
Um besouro carregando
40 puxa na frente
40 atrás empurrando
E as 20 que vão em cima
Pensam que estão ajudando

Manoel Xudú

Dodó Aragão

A Poeta Priscilla Filó, catou essa quadrinha singela, não sei de que baú de tesouros:

No meu humilde viver
A solidão é tamanha
Que só me falta perder
A sombra que me acompanha.

Dodó Aragão

Sertanejo distante do sertão...

Versos capturados numa peleja que se deu, com amigos no Facebook:

Fernando Marques VC

Sertanejo distante do sertão
É abelha perdida do cortiço
É romeiro sem mais padim ciço
É nordeste sem festa de São João
A tristeza lhe invade o coração
E dos rumos da vida perde o plano
Lá no fundo do peito o desengano
Cada dia que passa mais humilha
Pois se sente igualzinho a uma ilha
Retirada do rio ou do oceano

Wellington Rocha

Sertanejo distante do sertão
É limão que não tem mais o azedo
Virgulino Ferreira tendo medo
De Macaco,tenente ou capitão
É forró e xaxado sem baião
Um vaqueiro sem ter uma montaria
Uma festa que não tem a romaria
Um relogio sem ter os seus ponteiros
Varias flores arrancadas dos canteiros
Violeiro sem ter uma cantoria.

Pepita Lins

Sertanejo distante do sertão
É uma mãe sem tocar a sua cria
É viola sem corda ou cantoria
É é uma veia pulsar sem coração
É o sol que desperta sem clarão
É a APPTA sem verso e sem repente
É um rio estourar sem ter enchente
É alegrar com a dor de uma saudade
É chorar com soluços e vontade
De voltar pra essa terra que é da gente.

Fernando Marques

Sertanejo distante do sertão
É curral sem ter uma porteira
É Dedé sem o seu 'Fim de Feira'
É novena sem fogos e balão
É pecado que não tem perdão
Vacaria sem um bom reprodutor
Hospital sem ter um só doutor
Ter dinheiro sem ter o que comprar
Uma vista sem nada pra olhar
É viver nessa vida sem amor

Pepita Lins

Sertanejo distante do sertão
É não ter mais vontade de viver
É plantar uma roça e não chover
É não ver mais nos olhos ilusão
É o mato não mais brotar do chão
Eu parar de amar na poesia
Jesus Cristo não ser filho Maria
É a "VOZES DO CAMPO" não cantar
É o mundo inteiro não girar
E o palhaço não trazer mais alegria.
E assim vamos vivendo...

Pedro Torres

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Louvando o gênio Filó...

O poeta Jorge Filó, compartilhou em 2005 essa missiva do Poeta Dedé Monteiro, convidando ao lançamento do livro As curvas do meu caminho, de autoria do gênio Manoel Filomeno de Menezes, Manoel Filó, realizando o seguinte aparte:

Manoel Filomeno de Menezes,
Uma vez você disse sem pensar
“Chora o cedro na gruta da floresta
Escutando o machado a trabalhar”

E “O crepúsculo no campo é tão bonito
Que até Deus se debruça pra olhar."


Quem cria motes assim
E os glosa qual você faz
Por mais que tenha vivido
Tem que viver muito mais
Pra continuar brilhando
Sendo aplaudido e criando
Prodígios fenomenais.

Lamentando o cenário sertanejo
Quando o sol do verão nos apavora
Você fez uns milagres neste mote
Que quem lê sem chorar, por dentro chora
“O carão que cantava em meu baixio
Teve medo da seca e foi embora”


Criou também um poema
De inspiração desmedida
Neste mote primoroso
Magoador de ferida
“Todo dia muda a cor
Do quadro da minha vida”


Você nunca soltou o cabo liso
Do martelo sagrado da emoção
Fez com ele uma peça genial
Neste mote de rara inspiração
“Quando a gente magoa uma saudade
Incomoda demais o coração”


Que o mundo se coisifique
Todos morremos de medo
Por isso, você que sabe
Do sentimento o segredo
Não pode sair de cena
Bote mais tinta na pena
Não diga adeus nem tão cedo.

Quando Zé Marcolino despediu-se
E o nordeste ficou de alma enlutada
Amargando a saudade imorredoura
Você disse exprimindo a dor de cada
“A estrada matou quem escreveu
O mais belo poema da estrada”


Conquistando os corações
“Devagar, devagarinho”
Você foi duplo gigante
No gabinete e no pinho
Por isso a gente não sai
“Das curvas do seu caminho”

Eis aqui outra prova incontestável
De grandeza e de sensibilidade
Você disse aos que a vida condenou
A viverem sofrendo atrás das grades
“Uma gota de pranto molha o riso
Quando o preso recebe a liberdade”


Parabéns Manoel Filó
Por teu menino primeiro
Dois mil e cinco, o segundo
Dois mil e seis, o terceiro
E espero que Deus consinta
Que aos cem em dois mil e trinta
Você faça o derradeiro!

Dedé Monteiro, Tabira, 28 de Março de 2004.

Nesses motes genais, bem destacados por Dedé Monteiro, o poeta, FilóSofo e meu padrinho, Manoel Filó deixou dito:

Quem já teve um amor antigamente
E com ele fez muitas brincadeiras
Casamento francês pelas fogueiras
Brincadeira de anel pelo batente
Hoje, de tudo estando ausente
Pra se ter a maior recordação
Basta ter numa noite de São João
Brinquedos da mesma qualidade
Quando a gente magoa uma saudade
Incomoda demais o coração


Quem viveu um amor intensamente
Quem curtiu, quem amou, sorriu, sofreu
Quando vê q'esse amor não é mais seu
Não vê mais nem futuro nem presente.
No lugar de um sorriso encandescente
O semblante tem outra posição
A lembrança "Piníca" o coração
Tudo vira completa insanidade
Quando a gente magoa uma saudade
Incomoda demais o coração


Manoel Filó
13.10.1930 - 21.08.2005

Fonte: Associação dos Servidores do Poder Judiciário de Pernambuco

A vida, quando começa?

"Aos quarenta!"

Disse o Poeta Ciro Filó:

Sentindo o peso dos anos
E abalos na estrutura
Fuçada a carroceria
Envelhecida a pintura
2011 me mostra
Quanto é frágil a criatura

Ciro Filó

Parabéns, por seus 40 completos, vida longa, e feliz nova primavera!

Pedro Torres

domingo, 20 de novembro de 2011

Belo Monte

Se você não quer ver a Usina Hidroelétrica do Belo Monte Construída, desligue todos os seus equipamentos eletrônicos e não assista TV, inclusive, os reclames publicitários doidivanas, sem fundamentos concretos, contra a construção da represa.

Não navegue na internet, muito menos, imprima quaisquer documentos sobre o assunto, pois isso irá gerar demanda por mais energia e, por conseguinte, a necessidade de suprí-la.

Então, se você realmente quer fazer algo, e acredita que sua ação pode mudar alguma coisa, desconecte-se! A começar pelo PC que você está usando agora pra ler esta mensagem.

Desligue a sua TV; Não use o microondas, tampouco, chuveiro elétrico. Quando o sol se puser no horizonte, não utilize nenhum meio de iluminação artificial, pois todas elas, de forma direta ou indireta, requerem eletricidade para que existam.

Assim, não compre, ou utilize, nada que careça de energia elétrica para sua confeção; Se manufaturados, exija que todas as matérias primas empregadas sejam renováveis, ou que não haja produtos industrializados na sua composição.

Porém, se você considera essa postura não mais que um devaneio, por compreender importante a construção da usina, ou não, compartilhe uma informação verdadeira sobre o assunto, mas, antes de fazê-lo: Informe-se!

















Pedro Torres

Vaqueiro herói

Num dia de vaquejada
Nas quebradas do sertão
Um cavalo preto encosta
Na porteira do mourão
Aguardando o boi Bordado
Na festa de apartação

Abre logo essa cancela
Que o ‘pordo’ quer correr
Sou vaqueiro e minha sina
É fazer o boi valer
E o Bordado vai cair
Quem quiser, pague pra ver

Assim pensava o vaqueiro
O melhor da região
Um moleque bom de gado
Montado num campeão
Aboiando pra donzela
Que ganhou seu coração

“A moça pra ser bonita
Tem que ter pele morena
A cintura bem fininha
E a boca bem pequena
Dessas que a morte mata
E a gente chora com pena”

O vaqueiro herói desfila
Ele, o cavalo e a rês
O boi não volta ao curral
Se lá morrer um dos três
Pra cumprir o seu destino
Sai correndo de uma vez

Êh! Valeu vaqueiro
O seu nome e a sua fama
Se espalhou pelo sertão


Êh! Valeu vaqueiro
A lembrança e a saudade
Dilacera o coração...


Letra da música: Vaqueiro Herói, de nossa autoria, em parceria com o compositor e músico, Poeta Miguel Nascimento.

Pedro Torres
Recife, 2000.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Estrelas do passado

Já errei muito mais do que devia
Hoje estou começando a errar bem menos
Meus deslizes começam a ser pequenos
Bem menores que a ânsia de chegar
Eu sai sem saber como voltar
Eu segui os atalhos do destino
Apanhei pra deixar de ser menino
E hoje apanho tentando não errar

Já andei muitas braças, muitas léguas
Já tive grandes e enormes bons amigos
Tive vários amores, tive abrigos
Tive abalos, caí, me levantei
Tive acasos, perdi, também ganhei
Meus pecados paguei em alto preço
Me perdoe se achar que eu mereço
Se mereço até eu nem mesmo sei

Sei que nada se perdera por completo
Ainda resta um restinho de esperança
Um fiapo, uma nesga de lembrança
De um passado feliz que me marcou
Um poeta, um boêmio, um cantador
Um balcão, uma prosa, uma piada
Um soneto, um repente, uma noitada
E uma canção pelas retinas desabou

Meu desafio pelas léguas caminhou
Fui ferido e feri quem me feriu
E ferindo, a ferida se abriu
Nunca mais suturou, tornou-se chaga
E uma canção de amor me embriaga
Em doses de versos Buarqueanos
E uma bandeira branca em fino pano
Bem no seio de minha alma foi fincada

Foi ficando cada vez mais hasteada
E bem no alto tremula irradiante
Acenando aos poetas mais errantes
Quero paz e o resto a gente enterra
Qualquer mágoa nesse instante se encerra
Meu abraço abre os braços para os teus
E se teus braços chegarem junto aos meus
Eu abraço e nunca mais teremos guerra.

Do palhaço do circo do futuro, Poeta Maciel Melo.

Versos inversos, em tempos perversos...

No tempo das mesmas desesperanças e solidão, poetas escrevem suas metas.

Antes, a entrega insólita, depois, o amanhecer à luz da Divina Providência.

E assim se deu:

- Primeiro, disse do começo ao fim, o Poeta Augusto dos Anjos:

Versos Íntimos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

- Depois, disse da lida, o Poeta Brás Costa:

Caro Augusto,

Eu também sepultei minhas quimeras
Muitas vezes bebi ingratidão
Passei anos sem ver as primaveras
Oscilando entre outonos e verão.

Também eu, me envolvi de solidão
Naufragado nos mares das esperas
Quase vi minha frágil embarcação
Afundar-se com minhas poucas eras.

Mas contudo, poeta, não me rendo
Não ataco essa vida (nem defendo)
Tem quem luta, e tem quem só almeja!

E assim ponho em risco a minha paga
Afagando essa mão que me afaga
E beijando essa boca que me beija.

Poeta Brás Costa.

Nosso amor da besta-fera

Se não fosse o ser, não era
Se não fosse o tá, não tava
Se não fosse bom, minguava
Nosso amor da besta-fera;
Mas de tão bom se supera
E de tão grande ele alcança
A distância que avança
Nesse chão que nos separa
E de tanto ser, não para
De ter sempre uma esperança.

Esperança na melhora
Num futuro mais sereno
Onde um tempo mais ameno
Tenha mais tempo que agora
Mas enquanto não aflora
A melhora em nossa agrura
Nosso amor inda segura
Tudo quanto é empecilho
Como quem anda no trilho
Do trem que leva a loucura!

Poeta Jessé Costa Belo Jardim, 15/11/2011.

Se decidires voltar...

Se decidires voltar
Entres sem fazer rumores
Não despertes minhas dores
Sei que não vens pra ficar.
No quarto podes entrar
Mas não me olhes sorrindo
E não me jures mentindo
Pois não creio mais em nada:
Entres sem fazer 'zuada'
Que a minha dor tá dormindo.

Poeta Brás Costa.
Górdoba, 15.11.2011

Cutucado pelo Padroeta Brás Costa pra fazer um verso no mote, o Poeta Lima Júnior sacudiu lá do sertão:

Se voltares qualquer dia
Te achegues de mansinho,
É que meu peito é fraquinho
Para tamanha alegria!
E o tecido que cobria
Meu coração, ta puindo
E o que acalentei sentindo
Pode acordar sem razão .
Não faça zoada não,
"Que a minha dor tá dormindo."

Poeta Lima Júnior
Tuparetama, 16.11.2011

E eu presenciando essa peleja de versos magistrais me alegro, e, ainda há quem não encontre a felicidade, nas coisas simples, dos poetas geniais.

E eu, me enxerindo, disse no mote:

Se te bater no juízo
De tu quereres voltar
Venha sem nem me avisar
Mas, não me escondas teu riso.
Pois, é tudo que eu preciso
Pra te receber sorrindo
Mas, eu vou lhe advertindo
Não faças muito barulho
Sacudindo o teu orgulho
"Que a minha dor tá dormindo."

Pedro Torres

domingo, 13 de novembro de 2011

Zé Cardoso - Ser Doutor...

Aprendi a cantar sem professor
Com a graça de Deus eu sou completo
Você vem me chamar de analfabeto
Exibindo o diploma de doutor
No congresso que eu for competidor
Vou ganhar de você de dez a zero
Seu doutor eu vou ser muito sincero
Se eu deixar de cantar não sou feliz
Ser poeta eu sou porque Deus quis
Ser doutor não sou porque não quero.

Poeta Zé Cardoso.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Sorrir e Cantar

Quando falas porque vivo sorrindo
Falas também por viver cantando
Se a vida é bela e se este mundo é lindo
Não há razão para eu viver chorando

Cantar é sempre o que a fazer eu ando
Sorrir é sempre meu prazer infíndo
Se canto e rio, é porque vivo amando
Se amo e canto, é por que vivo rindo.

Se o pranto morre quando nasce o canto
Eu canto e rio pra matar o pranto
E gosto muito de quem canta e rí

Logo bem vês por estes dotes meus
Que quando canto estou pensando em Deus
E quando rio estou pensando em tí.

Poeta Rogaciano Leite, em Carne e Alma

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Eulália

Deixei-a solitária por uns dias,
Enquanto melhorava do ciúme,
E saí pra evitar muitas porfias
Que entre nós se davam de costume.

Nesse tempo eu andava arruinado...
E as brigas entre nós, frequentemente,
Transformavam a abelha do passado
Numa aranha de dor sempre presente!

Então o inseto que fazia, outrora,
Mel de carícias na feliz colmeia,
Vinha fazendo entre nós dois, agora,
O fel da vida - numa horrível teia!

Corri mundos, andei por terra estranha,
Procurando renúncia, esquecimento...
Mais, dia-a-dia, se infiltrava a aranha
Na teia enorme do meu pensamento!

Mandava-lhe presentes de onde estava,
Escrevia-lhe cartas carinhosas
Pedindo que esperasse que eu voltava
E novamente nasceriam rosas...

Mas, uma noite, triste noite, amigo,
Eu entrei num cassino, que amargura!
Ah! Não chores de ouvir o que te digo
Nem te rias da minha desventura!

A sala estava cheia de cinismo
Dos que, no vício, vão matar a sede...
Era um antro de fumo e alcoolismo,
Com visões sensuais pela parede!

Um perfume de bétulas e sândalos
Recendia da carne e sedas finas,
E a luz envergonhada dos escândalos
Parecia tremer sob as cortinas!

A dona do cassino, a abelha-mestra
Do cortiço infeliz, torpe e devasso,
Dava bebida aos maganões da orquestra
E mandava agitar sempre o compasso...

Enquanto os instrumentos gargalhavam
Na frivolência do pagode insano,
Eu distinguia as notas que choravam
Nas cordas ultrajadas de um piano!

Mais tarde, era o intervalo do pecado...
Enquanto a orquestra demorava o ensaio,
A pianista curvando-se ao teclado,
Dedilhava a canção Rosa de Maio...

Era aquela canção - quando partimos -
A que Eulália tocava todo o mês...
Pois foi no mês de maio que nos vimos,
Eulália e eu - pela primeira vez!

Recordação, saudade, sofrimento...
Aproximei-me sem saber por quê...-
Era Eulália que estava no instrumento!
Sim, Eulália... vestida de "soirée"!

Quando me viu, eu vi também seu vulto
Afogar-se nas brumas de um desmaio...
E até hoje em minh`alma um piano oculto
Vive sempre a tocar Rosa de Maio!

Poeta Rogaciano Leite, no seu livro Carne e Alma.